No domingo, dia 29 de abril, às 22h, o SESCTV exibirá o documentário Eu Eu Eu José Lewgoy, com direção de Cláudio Kahns (Mamonas para Sempre). Lançado nos cinemas em 2011, o longa-metragem recupera a trajetória do ator José Lewgoy (1920-2003), com depoimentos da atriz Tônia Carrero, do crítico Sergio Augusto, de Luis Fernando Veríssimo, Gilberto Braga, do cineasta alemão Werner Herzog, além de amigos e familiares.

Eu Eu Eu José Lewgoy resgata grandes momentos da vida e dos 56 anos de carreira do veranense de nascença e cidadão do mundo por escolha própria. O filme é aberto por uma das inúmeras considerações de Lewgoy sobre sua vida: “Não é uma biografia. Nem saberia como escrevê-la. São lembranças dessa vida maluca que levei nestes últimos oitenta anos e que pretendo levar nos próximos oitenta”.

Poucos atores tiveram a oportunidade de fazer cinema desde cedo como Lewgoy. Seu talento, inteligência e vasta formação cultural registraram sua marca na história, tanto quanto o seu temperamento difícil. Seu passatempo preferido era contar histórias de sua vida e discordar de tudo o que os outros ousavam dizer. Graças ou não a esta característica, Lewgoy se tornou, segundo Luis Fernando Veríssimo, “o ator brasileiro mais internacional da história do país”.

Embora tenha começado no teatro, o cinema, sua grande paixão, chegou cedo à vida do ator. Por intermédio de Erico Veríssimo, ganhou uma bolsa de estudos na Escola de Teatro da Universidade de Yale, nos EUA, e ao retornar ao Brasil anos mais tarde, iniciou sua carreira nas pornochanchadas. O crítico Sergio Augusto, autor de livro sobre a chanchada da Atlântida, contribui para o documentário com ricos detalhes sobre a carreira de Lewgoy. Carnaval no Fogo (1949) foi o primeiro filme do ator ao lado de Tônia Carrero, que assistiu emocionada a cópia original da produção ao lado de Cláudio Kahns, durante a gravação do documentário. Aí Vem o Barão (1951), Carnaval Atlântida (1952), Amei um Bicheiro (1952) e Morrer ou Correr (1954), fazem parte de uma etapa produtiva e momento de formação de grandes amizades com Oscarito e Grande Otelo. O ator partiu para a França logo depois, onde permaneceu por dez anos.

Apesar da dificuldade financeira e do esforço da família em trazê-lo de volta, Lewgoy se recusou a voltar ao Brasil e, em Paris, participou de quatro filmes. Parecia adivinhar que, ao voltar, ficaria sem campo de trabalho. A pornochanchada perdera a força e o cinema novo surgira indômito. Foi então que Glauber Rocha o convidou para viver um político populista no que seria um dos seus maiores filmes, Terra em Transe (1967). Lewgoy fechou a década como o vilão em Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968) e Ibraim do Surbúbio (1976), filme preferido de Lewgoy, é o prenúncio de uma carreira televisiva de grande visibilidade.

Em Eu Eu Eu José Lewgoy, o escritor Gilberto Braga revela que o ator se destacou nas novelas por sua capacidade de pensar no personagem como parte do roteiro. “Ele buscava entender com profundidade as relações entres os personagens e interagir com todas as variações de seu papel”, comenta. Anjo mau (1976), O Rebu (1974); Nina (1977); Dancing Days (1978); Água Viva (1980); Feijão Maravilha (1979), uma homenagem a chanchada; Louco Amor (1983); e Anos dourados (1986) são destaques de sua carreira na televisão.

Eu Eu Eu José Lewgoy também traz o depoimento do cineasta alemão Werner Herzog, que conta emocionado sobre sua convivência com o ator durante as filmagens do premiado Fitzcarraldo (1982). Vinte anos mais tarde, aos 81 anos, Lewgoy recebeu uma merecida homenagem do Festival de Gramado e também o reconhecimento da Academia Brasileira de Letras. Carinhoso. Solitário. Solidário. Assim o ator foi definido por amigos em uma mesa de bar enquanto relembravam histórias. Lewgoy fez amizade pelo mundo todo. De tempos em tempos, visitava outros países, mas nunca deixou de voltar à sua cidade, Veranópolis, localizada no interior do Rio Grande do Sul.

José Lewgoy foi filho de pai russo e mãe norte-americana, e o único filho nascido no Brasil. Diante de sua história e de seu temperamento forte, pode ser fácil imaginar o que se passava na brilhante cabeça de Lewgoy. No entanto, nas últimas cenas do documentário, enquanto Tônia Carrero relata que esteve com o amigo em seu último dia de vida, a vista do apartamento de Lewgoy localizado na Lagoa, no Rio de Janeiro, dá espaço para a última consideração do documentário feita pelo próprio ator: “Na verdade, sou mistura de um personagem de Alice no País das Maravilhas. Aquele gato que sorri sempre, Cheshire Cat. Ele vai sorrindo, sorrindo e vai desaparecendo todo até ficar apenas o sorriso. Entre esse personagem e o Meursault, de O Estrangeiro, eu estou lá no meio. Quem quiser saber como eu sou, quem eu sou, leia Alice no País das Maravilhas e leia O Estrangeiro, de Albert Camus.