O canal de televisão por assinatura AMC estreia no próximo dia 10 de abril a segunda temporada do seriado Fear The Walking Dead. Confira abaixo uma entrevista com Dave Erickson, o Produtor Executivo e Showrunner do drama.

De que maneira “Fear the Walking Dead” é diferente de “The Walking Dead”, e é fácil para alguém que nunca assistiu “The Walking Dead” ficar viciado no “Fear”?

Dave Erickson: É definitivamente fácil, e não é necessário saber qualquer coisa a respeito de “The Walking Dead” para ficar viciado em “Fear”. Depois de conversar com muitas pessoas – com os atores, os produtores e alguns espectadores – todos concordam que, da forma que abordamos a história, não é necessário qualquer conhecimento prévio da história em quadrinhos original ou da outra série. O que fizemos foi estruturar a série de tal forma que se você for fã das histórias em quadrinhos originais e assistir “The Walking Dead”, reconhecerá imediatamente a mitologia e verá como as histórias são estruturadas. Mas você também compreenderá a abordagem diferente que é dada ao “Fear” e o ponto de vista diferente que a série possui.

Para a primeira temporada, conversamos muito sobre a ideia de que estávamos lidando com a época em que Rick Grimes estava em coma, logo no início de “The Walking Dead”. Os espectadores tinham uma janela para ver aquilo que ele perdeu. Mas se você realmente observar os detalhes da primeira temporada de “Fear”, não seria o caso de terminar em uma cena final do último capítulo, no qual poderíamos ter cortado para a Geórgia no momento em que Rick estava prestes a acordar. Se você observar esse ponto na linha do tempo, na verdade ainda faltavam algumas semanas para aquele momento. Então, o que é interessante na maneira que estruturamos a primeira temporada e, à medida em que caminhamos para a segunda temporada, a nossa família estava relativamente isolada. Passamos de sua percepção nos primeiros episódios de que tudo estava desmoronando e que o mundo estava mudando, para a chegada da Guarda Nacional e, essencialmente, para estarem presos em um campo de internação. Eles estavam confiantes de que as coisas estavam sendo consertadas no mundo exterior. Assim, foi apenas no final que viram como as coisas estavam na verdade desmoronando de uma maneira tão profunda

Isso é o que é sensacional sobre entrarmos na a segunda temporada: a bolha estourou! Eles tiveram que fugir daquilo que inicialmente pensavam que seria a segurança sob os militares, e encontram no litoral a desolação e o desastre em pleno curso em torno deles. Então, o que a nossa família estendida agora tem a fazer é descobrir exatamente o quão ruim as coisas são. Até onde isso se espalhou? É algo que está tomando todo o país? O mundo inteiro? Isso os coloca em uma posição muito interessante, na qual puderam aprender muito a respeito de si mesmos e de suas naturezas ao longo da primeira temporada e sobre o que estão dispostos a fazer, à medida em que as coisas vão de mal a pior – mas até onde irão para colocar isso em prática?

Cada uma das famílias passou por alguma tremenda perda na primeira temporada. Será que isto os unirá na segunda temporada e os ajudará a tentar descobrir como sobreviver?

Dave Erickson: Bem, é interessante, porque uma das coisas importantes para Robert Kirkman quando começamos a desenvolver o drama foi o tema da violência e como cada um dos personagens a abordaria. E isso não significa apenas as “mortes” dos caminhantes, mas como cada um dos personagens reagiria quando tivesse que acabar com um morto vivo?

Até o final da primeira temporada, eles já haviam enfrentado uma horda de zumbis, e a maioria deles (com exceção de Travis, Chris e Alycia) teve que lutar com um dos infectados e acabar com um zumbi. Assim, as questões são o efeito dessa violência e a moralidade de cada um – como vão aprender a processar tudo, agora que caminhamos rumo à segunda temporada?

Eles também testemunharam o que equivale à queda de Los Angeles. As cenas em que dirigem através de uma Los Angeles desolada, abandonada, morta, significam que estão deixando suas casas para trás. Eles perderam seus lares, seus amigos, seus vizinhos, e isso é catastrófico. Acho que, inicialmente, todos estão muito chocados por isso e, em seguida, passa a ser mais sobre as conexões que desenvolvem e, é claro, o seu relacionamento com a violência.

Agora, na segunda temporada, eles embarcaram no “Abigail”, o iate de Strand, e acho que perceberemos muito rapidamente, ao nos movemos pelos primeiros episódios, é que eles não foram as únicas pessoas a ter essa brilhante ideia. Eles não são os únicos que decidiram virar refugiados de Los Angeles e correr para o mar. Isso criará conflitos adicionais. Serão duplos: o que fazem quando forem confrontados com um zumbi e o que farão quando se confrontarem com outros sobreviventes? Como os abordarão e onde estará o maior perigo?

Strand disse no final da primeira temporada: “A única maneira de sobreviver a um mundo louco é aceitar a loucura”. Então, de que forma isso realmente se desenrola na segunda temporada?

Dave Erickson: Penso que um grande tema para a segunda temporada de “Fear” é que, uma vez que descobrimos que o mundo realmente acabou, uma vez que chegamos à conclusão que não há como voltar atrás, que tipo de pessoa cada um dos personagens se tornará? Serão capazes de se render? Será que serão devorados e consumidos pelo apocalipse ou será que mudarão sua natureza básica? Eles poderão realmente continuar a lutar contra isso e tentar se agarrar à sua humanidade?

Isso foi algo que começou na primeira temporada, especificamente com o Travis, e acho que vamos ver isso continuar na segunda temporada. Uma das coisas que tanto Liza e Madison disseram a respeito de Travis era que se ele tivesse que matar qualquer uma delas, isso acabaria com ele. Penso que uma das questões interessantes para esta temporada é se esse ato acabaria com ele ou se ele seria capaz de superar tudo, não apenas para si, mas especificamente para Chris, que acabara de perder sua mãe?

É um renascimento frágil, mas violento para cada um dos personagens que passam para a segunda temporada, e penso que veremos elementos dessa “loucura” em diversos personagens – Nick, Travis, e Daniel.

Por falar em Daniel Salazar (interpretado por Ruben Blades), na primeira temporada houve insinuações sobre alguns momentos muito escuros de seu passado. Será que serão revelados mais alguns detalhes disso durante a segunda temporada e como isso afetará seu relacionamento com sua filha Ofelia (interpretada por Mercedes Mason)?

Dave Erickson: Na primeira temporada, percebemos que Daniel definitivamente não era um humilde barbeiro. A verdade é que ele cometeu atrocidades; cometeu alguns atos verdadeiramente violentos em seu passado. Sua esposa Griselda sabia disso. Ela talvez não conhecesse os detalhes, mas estava ciente. Mas ela estava disposta a apoiá-lo e até mesmo oferecer-lhe a absolvição, mas agora ela se foi. Por outro lado, sua filha Ofelia apenas recentemente ficou conhecendo esse lado dele e o julga com o olhar. Ofelia passou grande parte de sua vida protegendo seus pais imigrantes, sentindo que eram um pouco atrasados; que eram do “velho mundo” e que lutavam para assumir suas vidas nos EUA.

Ela realmente havia dedicado muito tempo e energia tentando cuidar deles, e agora veio a perceber que eles eram muito mais capazes do que ela pusesse imaginar. Ela também acabou percebendo que realmente não tinha ideia de quem seus pais realmente eram, ou de quem seu pai era agora. Ela tenta compreender quem ele é, enquanto ele procura nela algum tipo de redenção e perdão. Ela olha para o pai e olha para o que aconteceu com sua mãe, e realmente vê isso como os pecados do pai tendo sido pagos pela mãe. Emocionalmente, existe uma enorme quantidade de coisas acontecendo com aquela família na segunda temporada.

Nick (interpretado por Frank Dillane) havia revelado no capítulo final da primeira temporada que admitia que passava pelo seu próprio apocalipse como viciado em drogas, e que outras pessoas estavam agora começando a perceber. O quanto isso é importante para o desenvolvimento de seu personagem na segunda temporada?

Dave Erickson: É uma grande parte de seu desenvolvimento. No final da temporada passada, Nick tem essencialmente um momento de clareza. Ele vê o mundo caindo aos pedaços e, pela primeira vez, está limpo das drogas. Ele não será capaz de vencer novamente. Então, percebe que é alguém que deveria ter morrido muitas vezes em sua vida anterior e agora tem de se perguntar como e por que sobreviveu.

Penso que ele tenha um certo sentimento de temor e fascínio. Está realmente intrigado com o que acontece agora em torno dele. Está realmente intrigado com os mortos, e por isso pensou que havia sido dada a ele uma segunda chance nesse novo mundo. Por ser mais apto a viver à margem, ele se sente mais confortável nesse novo mundo. Portanto, é uma oportunidade para que assista o apocalipse através de um filtro que não vemos em outros lugares. Ele teve uma experiência diferente daquela pressão para sobreviver, e agora enxerga tudo de um modo muito diferente.

Os zumbis em “Fear” estão em um estado muito menos deteriorado do que os zumbis em “The Walking Dead”. De que modo isso afeta a maneira pela qual os personagens reagem a eles?

Dave Erickson: Bem, algum tempo já terá passado quando entrarmos na segunda temporada, portanto eles já terão deteriorado um pouco mais e ficado um pouco mais atrofiados. E há outros fatores e elementos. Estamos na água salgada do mar e sob um sol escaldante. Então veremos uma progressão na sua aparência, mas fundamentalmente eles apenas recentemente se tornaram mortos-vivos e é muito difícil matar algum deles. Isso tem um custo emocional. Na verdade, estamos humanizando os mortos, e queremos continuar a mostrar o peso e a pressão que isso coloca em nossos personagens quando eles precisam despachar essas “pessoas”.

Alguns dos nossos personagens ainda querem reconhecer nos mortos algum grau restante de humanidade e talvez alguma inteligência ou compreensão. Tivemos a nossa primeira horda de zumbis no final da última temporada e certamente teremos muito mais mortos caminhantes nesta temporada. Mas ainda queremos adotar a ideia que Robert estabeleceu – nunca vamos querer que os mortos se tornem apenas uma “bucha de canhão”. Penso que isso acrescente uma perspectiva real para a narrativa, que poderemos explorar. Assim, mesmo que eles tenham uma aparência mais bruta, queremos manter suas qualidades humanas.

Por que é importante que os zumbis não se tornem apenas uma “bucha de canhão”?

Dave Erickson: Algo que é realmente interessante em todo esse gênero é que você pode projetar qualquer ansiedade humana, qualquer fobia ou qualquer medo nos mortos-vivos. A coisa boa do gênero zumbi é que você está, portanto, livre para matar os seus medos. Acho que existe uma certa catarse nisso: ela permite que você pegue todas as coisas que odeia e todas as coisas que o mantém acordado durante a noite, e acabe com tudo isso de um jeito muito definitivo.

Também penso que queremos evitar uma situação em que só teremos camadas em cima de camadas de mortos-vivos e eles estão sendo ceifados e isso não causa qualquer impacto real nos personagens. Fundamentalmente, é preciso haver algo emocional acontecendo. Sempre que houver qualquer tipo de interação com os mortos, queremos ter certeza de que isso esteja servindo a um propósito ou desenvolvendo um tema para o personagem envolvido e impulsionando a narrativa para adiante. A violência precisa causar o máximo dano aos personagens que a estão cometendo, tanto quanto é causada aos zumbis em quem estão dando um fim.

Como foi filmar no México?

Dave Erickson: Bem, para filmar em Baja, temos uma equipe parte americana trabalhando junto com um monte de técnicos e artistas que saíram da Cidade do México e um monte de pessoas que trabalham no local em Baja. Foi um esforço gigante e, tanto quanto eu possa recordar, nunca antes se fez alguma coisa assim para a televisão. Era um território desconhecido para todos: para os roteiristas, para os diretores, para todos os produtores e para a rede toda. Esse é um sentimento muito gratificante e acho que daremos ao público uma experiência nunca antes vivida.

“Fear” é um show muito diversificado e isso é realmente importante para nós. Quando filmamos em Los Angeles, foi em East LA, explorando bairros que não aparecem com muita frequência na TV ou em filmes. Trabalhando no México, demos continuidade a esse tema. Foi ótimo trabalhar com diretores, escritores e artesãos mexicanos. Bernardo Trujillo, nosso designer de produção, está baseado na Cidade do México e tem sido notável com sua energia e sua única e inestimável visão.

Acho que a diversidade está profundamente enraizada em todo o show. Temos um elenco e uma equipe extremamente diversificada e acho que isso nos dá uma vantagem muito interessante e uma ótica diferente. O resultado disso é um show muito elaborado.

Existe mais alguma coisa que você gostaria de compartilhar com os fãs a respeito da próxima temporada?

Dave Erickson: Penso que a pergunta mais intrigante seja esta: todos nós sabemos que estaremos a bordo de um barco, porque vimos isso no final da primeira temporada, mas… para onde estão indo os personagens?

Acho que logo perceberemos que o oceano não é mais seguro do que a terra, e que existe na água um nível muito diferente de adversidade e de ameaças. Ela obriga os personagens a escolherem um destino. Mas onde será isso? Para o norte para Vancouver ou para o sul para Cabo? Este é um barco que tem um alcance realmente incrível e um tanque cheio de combustível, portanto é viável que possam viajar umas 3 mil milhas através do Pacífico para chegarem até o Havaí. Poderíamos até mesmo acabar fazendo zumbis no paraíso! [Risos].

Essa é a pergunta intrigante para os primeiros episódios da nova temporada: que porto seguro os personagens podem encontrar e, quando chegarem lá, o porto será ou não seguro?