Com programas de entrevistas que abordam a filmografia de profissionais da área, a série Sala de Cinema, dirigida por Luiz R. cabral, estreia nova temporada com o mestre do terror brasileiro, José Mojica Marins, na quinta-feira, 31 de maio, às 22 horas, na SescTV. Mojica, criador de um dos personagens mais conhecidos do cinema nacional entre as décadas de 50 e 60, o Zé do Caixão, conta como a sétima arte entrou em sua vida, resgata elementos que inspiraram seu trabalho, revela motivações, medos e afirma que é o que menos ganha dinheiro com seus filmes.

- Publicidade -

Na estreia da nova temporada de Sala de Cinema, José Mojica Marins fala sobre sua trajetória cinematográfica e sua situação atual. Aos 76 anos, o ator, roteirista e diretor é conhecido no mundo inteiro por sua criação, o Zé do Caixão, e é um dos únicos cineastas que, embora tenha sido criticado e estigmatizado como cinema marginal, pode dizer que finalizou mais de 30 películas e as exibiu no circuito comercial.

Uma das recordações citadas no programa é o início de sua vida como cineasta. Criado na Vila Anastácio, bairro do município de São Paulo, começou a filmar aos oito anos quando ganhou sua primeira câmera. “Ao invés de pedir uma bicicleta, pedi uma câmera para o meu pai”, comenta. Filho de gerente de um cinema, sua rotina nas salas de projeção o fez um apaixonado pela sétima arte. A inspiração para seus curtas realizados aos montes durante seis anos vinham dos casos de sua vizinhança. Todos os acontecimentos mais estranhos serviam como material para suas produções.

O jornalista Ivan Finotti, um dos participantes do programa com depoimentos sobre o cineasta, diz que Mojica merece reconhecimento por ter aprendido a fazer cinema sozinho. Aos 14 anos, começou a despertar o interesse da imprensa. Nessa época, o cinema nacional havia sido dado como morto. Com a falência da companhia Vera Cruz, importante estúdio cinematográfico brasileiro fundado na década de 50, da Maristela e da Multifilmes, Mojica disse a seu pai que faria seu primeiro longa, o faroeste chamado A Sina do Aventureiro (1957-58).

Mojica explica que o terror surgiu em seu trabalho por vários motivos. Um deles foi a reação que o gênero causava no público. “Eu era um garoto, filho de toureiro e dono de cinema. Eu não me amedrontava com as coisas que normalmente assustavam as pessoas. Tive acesso a muitas películas proibidas.”, comenta. Enquanto frequentava sessões variadas, aproveitou para estudar a reação do público. “Quando vi que as meninas se jogavam no colo de quem estivesse perto durante as cenas fortes, logo pensei: Preciso fazer terror!”, completa.

Questionado se era uma criança povoada por medos, Mojica revela que foi uma criança e é um adulto com muitos medos. No entanto, o que o diferencia dos outros é justamente sua capacidade de enfrentar a situação. “Tive medo de dormir com a luz apagada até pouco tempo atrás”, comenta. Quando se casou, sua maior prova de fogo foi esconder da esposa que não resistia à escuridão do quarto durante uma noite de sono.

Prova de sua vontade de enfrentar os medos foi a criação do personagem Zé do Caixão. Em 1963, depois de uma noite de pesadelos em que se sentiu vencido por uma força maligna maior do que ele podia imaginar, Mojica se deu conta de que se criasse um personagem que fosse dominador e, portanto, provocasse medo em todos poderia fazer algum sucesso.

José Mojica Marins revela que não tem medo da morte. “Desde que não seja dolorida”, completa. Ele lembra que já foi dado como morto, depois de uma parada cardíaca, diz que gostou da experiência e reintegra que sente vontade de ajudar as pessoas a não sentirem medo da morte. “Vejo a morte como uma viagem. Como se fosse uma viagem para outro planeta, Marte ou Júpiter”. Quando questionado se gostou de interpretar Deus na série Somos1Só _-episódio A Espiritualidade e a Sinuca, dirigido por Lírio Ferreira, com direção geral da série de Ana Dip e realização do SescTV e TV Cultura , Mojica não tem dúvidas em dizer que o melhor é ser Deus, porque assim pode passar alguma mensagem positiva às pessoas.

Eu sempre achei que a cultura brasileira deveria ter coisas além do saci pererê. Então resolvi criar o Zé do Caixão”, argumenta quando questionado sobre a censura que seu trabalho sofreu. Mojica relembra de um episódio ocorrido em Brasília, quando quis conhecer os censores de seu trabalho. “Eles me apalpavam pra saber se eu era de verdade!”, exclama. “Como é que eles queriam censurar algo se acreditavam que eu podia não ser de verdade?”, completa.

Quando questionado sobre sua relação com outros cineastas como Glauber Rocha, Luiz Sergio Person, e seu posto de inspirador do cinema marginal, Mojica admite nunca ter entendido a origem desta admiração. O cineasta Carlos Reichenbach reforça em seu depoimento no programa, que Mojica é um dos maiores provocadores do pensamento conservador da época.

Embora seja a pessoa que menos ganha com seus filmes, em torno de 2 a 3% do total da renda, Mojica quer lançar, ainda neste ano, sua autobiografia e, muito em breve, o longa da saga final do personagem Zé do Caixão. Ressentido por sua atual situação, conta com ajuda de alguns dos seus sete filhos, 11 netos e amigos para conseguir receber os direitos de exibição de sua obra dentro e fora do Brasil. Mojica recebe ajuda financeira para viver e mantém o seu programa O Estanho Mundo do Zé do Caixão, exibido pelo Canal Brasil.

- Publicidade -