Leite em Pó enfrenta luto e reinvenção em jornada emocionante!

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O primeiro longa de Carlos Segundo falha em capturar a atenção do público

Após ganhar reconhecimento internacional com dois curtas aclamados — Sideral, nomeado à Palma de Ouro em Cannes em 2021, e Big Bang, premiado em Locarno em 2022 — Carlos Segundo era uma das grandes expectativas no Festival de Gramado de 2026. Sua estreia no longa-metragem de ficção, Leite em Pó, prometia consolidar seu talento. Contudo, o filme não atinge as expectativas, perdendo-se em sua própria narrativa ao tentar ser excessivamente enigmático, deixando de lado razões claras que motivem o espectador a seguir a trama do protagonista.

A narrativa acompanha Vicente (Vinícius de Oliveira), um homem de quase 40 anos, ainda dependente financeiramente de sua avó. Com o suicídio dela, Vicente é forçado a se virar sozinho. Segundo escolhe esquivar-se de uma estrutura narrativa tradicional, optando por uma abordagem misteriosa. A decisão reflete uma crítica social e política explícita: Vicente é a imagem do homem moderno desorientado, um pseudo-burguês que se vê revolucionário sem nunca ter provocado uma verdadeira revolução, agora precisando enfrentar a realidade porque sonhos não pagam contas. Ao descobrir um diário que revela segredos de sua avó e confrontar-se com a figura de seu avô, um militar machista e abusivo, o filme mergulha nas fragilidades de Vicente, legado de um sistema patriarcal que ele tentava ignorar.

A ambição temática é clara e, teoricamente, intrigante. No entanto, a execução falha. Leite em Pó confunde um mistério intencional com um vácuo narrativo. A subtileza e a manipulação da trama para manter o mistério acabam por esgotar rapidamente o interesse, deixando pouco espaço para que nos importemos com a evolução de um protagonista lento e tedioso.

Essa fragilidade é ainda mais evidente nas subtramas que parecem surgir aleatoriamente e falham em se desenvolver. A tentativa de Vicente de “salvar” uma cabeleireira de um relacionamento abusivo é introduzida abruptamente, sem preparação. O mesmo ocorre com a “redescoberta sexual” do protagonista, que mais parece um artifício de roteiro do que uma evolução natural, visto que a sexualidade do personagem nunca foi profundamente explorada até então.

Existe um contraste marcante entre este longa e os curtas que estabeleceram a reputação de Segundo: enquanto nos curtas a economia narrativa complementava o mistério, neste longa, ao estender essa abordagem por mais de noventa minutos, o diretor revela as limitações de um método que não se sustenta na duração de um longa-metragem.

É lamentável que, mesmo abordando temas profundos como o luto, o patriarcado e a destruição de sonhos individuais pela realidade, Leite em Pó não consiga superar sua execução frágil. Prevalece a impressão de um filme que sabe exatamente o que deseja discutir, mas não como engajar o espectador nessa conversa.

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