O Outro Lado das Redes: drama investigativo revanchista no estilo de David Fincher

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Aaron Sorkin demonstra, mais uma vez, dificuldade em traduzir seu texto cortante para a direção

Uma observação precisa ser feita sobre O Outro Lado das Redes, a mais recente obra de Aaron Sorkin que acompanha a apuração do The Wall Street Journal sobre o Facebook em 2021: encarar este filme como uma sequência de A Rede Social, de David Fincher, é problemático — tanto para as expectativas do público quanto para a própria narrativa protagonizada por Jeremy Allen White, Mikey Madison e Jeremy Strong.

São dois filmes que divergem completamente em tom e estrutura. O único ponto de contato é a presença de Sorkin no roteiro e a menção a Mark Zuckerberg. Fora isso, não há razões reais para tratá-los como uma continuação. A Rede Social, obra-prima da filmografia de Fincher, é um estudo de personagem: um exame frio da personalidade de Zuckerberg e da “genialidade” por trás da criação do Facebook, mesmo quando isso envolveu trair amigos ricos ou passar por cima de parceiros. Já O Outro Lado das Redes concentra-se na investigação sobre o que o Facebook se tornou e nas estratégias usadas pela empresa para se manter dominante e manter o crescimento. A abordagem, aliás, é totalmente distinta.

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Enquanto o longa de Fincher usava elementos de suspense para dissecar a psiquê irritada que deu origem às redes sociais, o novo filme aproxima-se mais de obras como Spotlight: Segredos Revelados e da própria série The Newsroom (criada por Sorkin), construindo um drama investigativo centrado no repórter Jeff Horwitz (White). É Jeff quem recebe da engenheira de dados Frances Haugen (Madison) documentos e detalhes sigilosos sobre o funcionamento do algoritmo do Facebook. Sorkin volta a brincar com a cronologia dos acontecimentos, como já fizera em 2010: acompanhamos as trocas entre Jeff e Frances entre 2020 e 2021, enquanto vemos Zuckerberg (Strong) se preparar para depor no Congresso dos EUA.

O roteiro de Sorkin mistura uma certa sede de vingança contra os danos atribuídos ao Facebook com um tom didático ao esmiuçar cada etapa da investigação. Ao transformar Jeff em alguém pouco familiarizado com tecnologia, o texto faz com que Frances tenha de explicar, quase passo a passo, os dados e os procedimentos que revela. Sorkin usa a narrativa para ressaltar que a empresa estava ciente dos efeitos nocivos de suas plataformas — desde a proliferação de mensagens de ódio até o estímulo a grupos extremistas em nome do engajamento. Algoritmos, gráficos e jargões técnicos atemorizam Jeff — e, antecipando a reação do público, Sorkin praticamente não deixa espaço para interpretações próprias.

O maior prejuízo dessa escolha recai sobre o Mark Zuckerberg interpretado por Jeremy Strong. Sorkin exagera ao transformar o fundador do Facebook num personagem frio e quase sociopata. As cenas com Wunmi Mosaku e Bill Burr, que vivem membros da sua equipe, até trazem alguma humanidade, mas episódios como reuniões internas na sede da empresa ou a reação de Zuckerberg ao ver as imagens da invasão ao Capitólio em 2021 o confinam a uma caricatura. Mesmo quando a intenção é criticar o CEO, o retrato acaba se tornando perigoso por transformar uma figura central nas dinâmicas políticas e sociais atuais em algo cômico e deslocado.

No ponto mais promissor do filme, Jeremy Allen White e Mikey Madison mostram boa sintonia, que funciona na maior parte das cenas. O que falta a Sorkin, contudo, é o refinamento que seus diálogos possuem no papel na hora de levar isso à imagem: faltam composições visuais que transmitam o medo de Frances ao vazar documentos confidenciais — capazes de arruinar sua carreira — e a angústia de Jeff em decidir publicar a matéria. A ideia central de Sorkin está clara, mas soa simplificada diante de planos pouco inspirados e de momentos de puro melodrama, como a repetição forçada de uma comemoração esportiva que pretende funcionar como símbolo.

O diretor também exagera em certas escolhas de enquadramento que evidenciam partes do corpo de Madison — pernas, decote — sem que isso tenha justificativa narrativa. A trajetória de Frances não é definida pelo seu físico, mas por seu isolamento social e pela busca por um sentido original do Facebook, uma espécie de ideologia que a empresa teria abandonado. Esses enquadramentos soam mais como efeito de interesse do diretor do que uma necessidade do filme.

A comparação entre O Outro Lado das Redes e A Rede Social pode parecer injusta com o trabalho de Sorkin: o filme até funciona como um drama investigativo competente e tem relevância no debate sobre o papel de corporações como a Meta na vida cotidiana — sobretudo na política. Ainda assim, é difícil não colocar as duas produções lado a lado, já que compartilham tema e roteirista — este último afirmou diversas vezes o desejo de fazer uma continuação do clássico de Fincher, o que alimenta a comparação. O tom didático do novo longa não deixa espaço para que o público avalie livremente as ações de Zuckerberg ou discuta a hipótese de que o Facebook seria apenas uma ferramenta neutra, cuja utilização nociva depende unicamente dos próprios usuários.

Assim como os algoritmos denunciados por Frances e Jeff orientam o comportamento dos usuários, Sorkin também guia o olhar da plateia na direção da sua interpretação da investigação e da figura de Zuckerberg, com uma fúria que peca mais na execução do que na argumentação. O magnata é tratado como um vilão caricatural de filme de espionagem, sem que isso justifique o tempo de tela que lhe é dado. A presença de Mark é muito mais forte quando se discute as consequências do que quando sua imagem aparece diretamente — e isso revela, de forma bastante clara, as limitações de Sorkin enquanto diretor.

Avaliação do Crítico

Regular

Alexandre Almeida

O Outro Lado das Redes

Crítico escrevendo avaliação de filme em laptop
Avaliação do crítico sobre O Outro Lado das Redes.

The Social Reckoning

Duração:

113 min

Direção:

Aaron Sorkin

Roteiro:

Aaron Sorkin

Elenco:

Jeremy Allen White,

Mikey Madison,

Jeremy Strong,

Bill Burr

Onde assistir:

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