Descubra como a Twinless transforma histórias valorizando a humanidade!

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Filme traz representatividade genuína e é excelente tanto na comédia quanto no drama

No Festival de Sundance 2025, presenciei dois filmes distintos e ambos com uma pitada de homossexualidade. Em minha primeira experiência em Park City, assisti a Jimpa, um filme que almejava ser o porta-voz da nova geração queer, mas que tropeçou em seu próprio desejo de se encaixar no convencional. No dia seguinte, foi a vez de Twinless: Um Gêmeo a Menos, dirigido, escrito e protagonizado por James Sweeney. Sweeney, já conhecido desde 2019 pelo seu filme sobre amor assexual Almas Gêmeas, oferece uma narrativa que dispensa discursos politicamente corretos para entregar uma trama LGBTQIAPN+ envolvente, emocionante e representativa, sem se prender a estereótipos ou histórias predefinidas.

A trama de Twinless gira em torno de Dennis (Sweeney) e Roman (Dylan O’Brien), sendo o primeiro gay e o segundo hétero. Eles se encontram em um grupo de apoio para indivíduos que perderam seus irmãos gêmeos, e desenvolvem uma amizade profunda, substituindo, um para o outro, a presença de seus irmãos perdidos. A partir deste ponto, a história poderia facilmente se transformar em uma comédia dramática sobre luto e recuperação, ou em um romance queer de autoconhecimento, ou até em uma narrativa sobre o amigo gay que transforma a vida do hétero. Contudo, Sweeney escolhe um caminho menos óbvio, introduzindo um plot twist já no primeiro ato que desvia a trama das expectativas iniciais.

Apesar de parecer que o filme poderia mergulhar no fantástico ou no horror, Twinless não precisa desses elementos para surpreender. Sweeney explora a humanidade em suas formas mais irracionais, instintivas e errôneas. Dennis e Roman, junto aos personagens que os cercam, são construídos a partir de arquétipos que, por vezes, parecem cruéis e ultrapassados, mas que ganham vida e credibilidade através de suas imperfeições, que são exageradas para efeito cômico – e com grande sucesso. No fundo, a obra é de fato uma comédia dramática sobre luto e recuperação, mas sem recorrer a soluções simples, evitando a fuga da raiva e das consequências dela, ou omitindo o lado ridículo do sofrimento.

Os atores aproveitam ao máximo a oportunidade de retratar essa complexidade emocional. O’Brien, já conhecido por sua habilidade de esconder profundidades sob uma fachada de grande carisma, encontra em Twinless o papel ideal para utilizar seu talento. Como Roman, ele interpreta um personagem emocionalmente imaturo e um tanto ingênuo (conforme o filme faz questão de salientar) de forma que é difícil não se comover. Sweeney, por sua vez, não só entrega as melhores piadas, mas também encara o desafio dramático de nos fazer compreender – embora não necessariamente aprovar – um personagem que mente, manipula, subestima e fantasia, e ele o faz com êxito.

Além disso, Twinless é realizado com sensibilidade e perspicácia. Com seu colaborador frequente, o diretor de fotografia Greg Cotten, Sweeney compõe cenas que posicionam seus personagens em um mundo fragmentado por espelhos, molduras e divisões de tela, destacando quem entra e sai do campo de visão da câmera, enfatizando as dinâmicas e relacionamentos que se formam. É uma história contada tanto através de cores e movimentos quanto por meio de diálogos irônicos e monólogos impactantes (o filme é habilidoso em ambos os aspectos). É, definitivamente, cinema como uma forma de arte visual dentro de um gênero muitas vezes subestimado.

Em última análise, Twinless consegue ser uma narrativa sobre pessoas que, por vezes, agem de maneira terrível… mas nunca nos aliena, pois, além de seu charme inegável, o filme é repleto de verdades. Verdades essas que são difíceis de captar quando se tenta suavizar nossas arestas mais ásperas em busca de aceitação.

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