Nuisance Bear: Documentário Estiloso e Informativo que Você Não Pode Perder!

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Premiado em Sundance, filme oferece um retrato impactante sem excesso de explicações

Nuisance Bear contém apenas uma entrevista tradicional ao longo de seus 90 minutos de duração. Essa entrevista é com Mike Tunalaaq Gibbons, um residente idoso de uma vila predominantemente inuíte ao norte de Churchill, no Canadá, que enfrenta a realidade dos ursos polares que atravessam a região todos os anos durante sua migração. Os diretores de Nuisance Bear aproveitam ao máximo essa conversa, incorporando as histórias de Gibbons – que abordam ancestralidade, mudanças históricas e traumas familiares, temas surpreendentemente ligados à migração dos ursos – ao longo do filme, quase como se ele fosse um narrador comentarista dessa jornada.

O restante do documentário, vencedor do Grand Jury Prize no Festival de Sundance 2026, adota um estilo observacional, intercalado ocasionalmente com segmentos didáticos sobre as adaptações únicas que a região de Churchill teve que implementar por estar localizada no caminho dos ursos. Os diretores Gabriela Osio Vanden e Jack Weisman demonstram um profundo conhecimento do ambiente que exploram (visto que este Nuisance Bear é uma extensão de um curta-metragem de mesmo nome, de 2021), e capturam o fascínio de revelar um estilo de vida pouco acessível à maioria das pessoas. O que é rotina para eles se torna uma fonte de fascínio para nós.

Principalmente na primeira metade do filme, enquanto observamos os moradores, autoridades e comerciantes de Churchill lidando com a presença de um dos maiores predadores do Ártico em suas ruas, Nuisance Bear delineia habilmente o embate simbólico entre a civilização contemporânea ocidental e a natureza: o urso aparece, se depara com elementos do mundo moderno que não lhe pertencem (lixões, pedreiras, turistas, fotógrafos), e a coexistência se torna progressivamente insustentável. O filme segue esse desencontro como um fato, e não como uma hipótese – até certo ponto.

A partir do momento em que Nuisance Bear (e seu protagonista) deixa a cidade de Churchill, Vanden e Weisman parecem concluir que é impossível permanecer indiferente. O contraste aqui é entre uma cidade que deseja continuar sua produção, mas é impedida pelo fluxo da natureza, e uma vila que mal consegue manter suas tradições, focadas na aceitação do embate entre homem e animal, mas que vê esse equilíbrio ser perturbado por interferências externas. Um local luta pela manutenção do colonialismo, enquanto o outro resiste a ele, embora cada vez menos.

Claro, Nuisance Bear não é simplista o suficiente para atribuir as consequências desastrosas do “progresso” promovido pelo modelo colonial exclusivamente aos habitantes de Churchill. Neste contexto, a irreversibilidade desse processo histórico é retratada como uma tragédia, uma escolha tonal que os diretores enfatizam através de uma cinematografia que destaca o desolamento das paisagens nevadas onde a narrativa se desenrola, e uma trilha sonora excepcional (composta por Cristobal Tapia de Veer, de The White Lotus) baseada em sintetizadores intensos, perfeitamente alinhados com a atmosfera contemplativa que o filme propõe.

À medida que o tom quase operático estabelecido por essas escolhas estéticas se intensifica na segunda metade do filme, ele cresce em escopo. Repleto de informações e mergulhado de forma exemplar no canto do mundo que busca retratar, o documentário também adquire uma ressonância que transcende as questões superficiais que poderia levantar, posicionando-se como um registro de um processo histórico que não começa nem termina com ele. É a melhor conquista que uma obra cinematográfica pode aspirar.

*Nuisance Bear foi exibido no Festival de Sundance 2026. Ainda não há data prevista para sua estreia no circuito comercial brasileiro.

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