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No ápice do documentário Time and Water, dirigido por Sara Dosa – conhecida por seu trabalho anterior, o indicado ao Oscar Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft –, presenciamos um funeral inédito na história humana. Na Islândia, o poeta e escritor Andri Snær Magnason lidera uma cerimônia em memória da geleira Ok, que deixa de ser reconhecida como tal para tornar-se apenas uma formação rochosa. Durante o evento, uma placa com uma mensagem de Magnason é afixada nas rochas: “Nós sabemos o que deve ser feito,” ele declara. “Porém, apenas vocês saberão se realmente o fizemos.”
Essa declaração soa como um aviso para as atuais e futuras gerações sobre as mudanças climáticas que já estão remodelando a paisagem da Islândia – afetando diretamente sua cultura, economia e indústria. Narrado pelo próprio Magnason, o documentário combina cenas impressionantes captadas por Dosa e sua equipe (num contraste marcante com as imagens de lava do filme Vulcões) e vídeos familiares do escritor, especialmente gravações feitas por seus avós. A iminente perda deles motivou Magnason a resgatar esses registros, que são verdadeiras cápsulas do tempo mostrando explorações de geleiras realizadas por sua família, documentando um mundo de vastidão branca que, como o filme Time and Water deixa claro, pode desaparecer em poucos anos.
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Ao associar a morte dos seus avós com a extinção da geleira, Magnason adiciona uma camada de urgência pessoal ao documentário, traçando um paralelo entre as mudanças em sua família e as alterações fundamentais em seu país – ambas consequências do tempo. A abordagem tem seus altos e baixos. Em alguns momentos, as reflexões podem parecer um pouco sentimentais demais, mas em outros, a emoção é genuinamente sentida, graças ao uso poderoso dos vídeos caseiros. Essas gravações, mais do que qualquer narração, expressam vividamente o amor e o carinho presentes na família de Magnason.
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Magnason, como escritor, conduz a narração de maneira eficaz, especialmente ao refletir sobre as implicações existenciais do desaparecimento das geleiras. Encarando o filme como um esforço de preservação, ele considera o derretimento do gelo não apenas como uma questão ambiental, mas também como um desafio à identidade dos islandeses. Por exemplo, o próprio nome do país, Islândia ou Ísland, que em antigo nórdico significa “terra do gelo”, perde seu significado se o gelo não existir mais.
O documentário Time and Water, assim como muitas obras do gênero, é mais eficaz ao levantar questões pertinentes do que ao explorar respostas definitivas. Contudo, sob a direção habilidosa de Dosa, cada pergunta é ricamente ilustrada com visitas cinematográficas às geleiras, permitindo-nos caminhar por seus corredores, explorar seus interiores e sobrevoar seus picos.
Consequentemente, Time and Water evita que as conjecturas de Magnason soem meramente especulativas. Há um aspecto tátil e real nas preocupações e medos do protagonista, perceptível em cada gota de gelo que derrete, em cada rocha que perfura a neve e em cada pessoa que some de suas gravações amadoras. A face da Islândia, e de seu povo, está se transformando diante de nossos olhos.
Resenha escrita como parte da cobertura do Festival de Sundance. Time and Water será lançado futuramente no Disney+.
