Kane Parsons conhece os limites do conceito que o catapultou à fama
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Os filmes de terror frequentemente exploram o trauma. Além do meme com Jamie Lee Curtis, que não surgiu por acaso, o cinema de terror de alta qualidade de hoje, representado por estúdios como A24 e Blumhouse, tem focado intensamente nesse tema. Isso é tão prevalente que um jovem cinéfilo, alimentado por filmes como Hereditário e o recente Halloween, poderia pensar que essa é a única narrativa disponível no gênero – a reinterpretação dos traumas dos personagens por meio de alegorias sobrenaturais.
Interessante notar que Kane Parsons, um jovem cineasta de apenas 20 anos, pertence a essa geração. Ele se tornou o diretor mais jovem a colaborar com a A24 no filme Backrooms: Um Não-Lugar. Antes disso, Parsons já era uma estrela na internet, onde lançou no YouTube a série The Backrooms, inspirada em uma ideia coletiva originada em fóruns online como o 4chan. Originalmente criada no programa de animação 3D gratuito Blender, sua obra agora se transforma em um filme hollywoodiano de grande orçamento e em live-action.
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Inicialmente, a transição de Parsons para o cinema parecia arriscada. Nos fóruns e no YouTube, as backrooms – uma dimensão paralela composta por salas esparsamente mobiliadas e quase normais – causam impacto devido à reação visceral que provocam. Embora Parsons tenha desenvolvido uma mitologia em torno desses espaços, das criaturas que os habitam e das entidades que os exploram, ele nunca se propôs a criar uma narrativa convencional dentro das backrooms ou explicar seu significado de forma direta, seja literal ou simbólica.
Na internet, para o tipo de público que a descobriria, The Backrooms era um enigma fascinante, uma interpretação distorcida dos espaços e tecnologias que moldaram as infâncias e adolescências dos espectadores. Mas, e no cinema, com uma história real e personagens reais? A ideia de um filme sobre Backrooms colocou Parsons numa posição delicada, na qual ele precisava ao menos sugerir o que realmente queria comunicar com esse universo que o tornou conhecido.
A surpresa agradável de Um Não-Lugar é perceber que este jovem diretor explorou seus próprios instintos o suficiente para apresentar ideias que superam as abordagens comuns no cinema de terror atual. No filme, seguimos Clark (Chiweter Ejiofor), um dono de loja de móveis com sonhos profissionais frustrados e um casamento fracassado, que descobre no porão de seu estabelecimento uma entrada para outra dimensão. À medida que ele explora as backrooms, sua psicóloga Mary (Renate Reinsve) e outros se envolvem na trama.
A premissa é simples. O roteiro de Will Soodik (Westworld) apresenta os personagens de forma direta: todos eles são pessoas que se sentem presas em seus caminhos de vida. Clark reage de modo raivoso e violento a essa sensação de impasse, enquanto Mary é o seu contraponto letárgico. Backrooms também inclui narrações em off, retiradas de fitas de autoajuda gravadas pela psicóloga, que ajudam a elucidar e, ao mesmo tempo, ironizar a situação patética em que ambos se encontram.
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Essa abordagem, de certa forma bem-humorada, permite que Parsons brinque com a linguagem cinematográfica como achar necessário, às vezes adotando o estilo found footage que caracterizou sua websérie (uma sequência em particular, no meio do filme, mostra por que The Backrooms ganhou tantos adeptos), e outras vezes se afastando deliberadamente dele. O resultado é um filme que flutua hipnoticamente em seu ritmo e nas imagens que escolhe mostrar, uma demonstração robusta dos talentos de um artista que ainda tem muito espaço para crescer.
Backrooms: Um Não-Lugar, apropriadamente, se destaca por entender bem seu espaço. Confortável dentro de seu gênero e consciente de seus limites, ele também mostra que o cinema de terror pode fazer mais do que apenas reviver os traumas de suas criaturas infelizes.
Backrooms: Um Não-Lugar
Backrooms
2026
110 min
EUA
Kane Parsons
Will Soodik
Mark Duplass,
Chiwetel Ejiofor,
Finn Bennett,
Renate Reinsve,
Lukita Maxwell
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Especialista em mídia digital e televisão, Alba Baptista traz uma expertise detalhada para a categoria “TV” do VCFAZ.TV. Natural de Lisboa, ela explora as últimas tendências em programação televisiva, oferecendo críticas e análises que capturam e informam os entusiastas da TV.