Quinze Dias Brilha ao Abraçar sem Vergonha Sua Essência!

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Comédia romântica gay brasileira é leve e um tanto cringe, mas se destaca pela sua autenticidade

O cinema adolescente LGBTQIAPN+ brasileiro enfrenta um desafio singular na atualidade. Filmes como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (2014), Com Amor, Simon (2018) e séries como Heartstopper (2022-) abriram espaço, embora esporadicamente, para narrativas que exploram, de maneira leve, relacionamentos queer. Esse fenômeno gerou uma demanda por essas histórias, tanto no Brasil quanto no mundo, instigando debates críticos e dentro da própria comunidade LGBTQIAPN+ sobre como essas obras são percebidas.

Esses filmes e séries são frequentemente avaliados sob duas óticas conflitantes: respeitabilidade versus representatividade. Há críticas por vezes incluírem “sexualidade demais”, afastando o público heterossexual cuja aceitação poderia ajudar a combater a homofobia, ou “de menos”, negligenciando um elemento vital da experiência queer. Esse desejo de ser aceito no mainstream influencia como o público reage aos clichês típicos do gênero que o filme decide adotar.

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Mas afinal, o que realmente esperamos de uma comédia romântica gay, moldada nos mesmos parâmetros fantasiosos das rom-coms heterossexuais? O filme Quinze Dias, inspirado na obra de Vítor Martins, responde a essa questão com um frescor que desmonta críticas superficiais. O diretor Daniel Lieff se entrega ao gênero com uma abordagem jovem e desinibida, em uma época em que o mercado editorial já superou essa dicotomia ao investir em nichos lucrativos.

A estética visual do filme remete às sitcoms americanas, com a diretora de arte Nathalia Siqueira enchendo o apartamento dos personagens Felipe (Miguel Lallo) e Rita (Débora Falabella) com objetos decorativos coloridos, criando um ambiente que lembra mais séries como The Middle e Modern Family do que o estilo de Pedro Almodóvar. Através dessa atmosfera quase artificial, o diretor de fotografia Fernando Young capta a narrativa com um polimento que suaviza os aspectos mais ásperos da trama.

Em Quinze Dias, Felipe é um jovem gay e acima do peso que sofre bullying na escola e prefere se refugiar em séries e filmes a enfrentar o risco de uma rejeição amorosa. Durante as férias escolares, a mãe de Felipe, Rita, concorda em hospedar Caio (Diego Lira), filho da vizinha, enquanto os pais dele estão fora. Caio, extrovertido, atlético e aparentemente hétero, é o oposto de Felipe, dando início a uma clássica dinâmica de “inimigos que se apaixonam”.

O roteiro, escrito por Ray Tavares e Vítor Brandt, explora as situações típicas dessa premissa e destaca o conflito entre os personagens, permitindo que o tempo os aproxime apesar das diferenças. Esta fórmula antiga é resiliente porque é eficaz, e os roteiristas, assim como Martins no livro original, aproveitam o conforto que ela oferece para enfatizar as emoções únicas que a perspectiva queer traz à história.

Quinze Dias culmina em um desfecho sinceramente tocante e dramático. Além disso, enquanto Miguel Lallo dá vida a Felipe com um carisma natural, Diego Lira adiciona camadas complexas a Caio, com olhares e pausas que enriquecem seu papel como interesse amoroso, evitando cair no estereótipo do galã superficial. O filme se entrega à fantasia de seu gênero e até brinca com outros, em cenas divertidas que homenageiam o estilo dos filmes noir e musicais.

Dessa forma, é complicado avaliar Quinze Dias pelos mesmos padrões restritivos frequentemente aplicados a outras produções jovens LGBTQIAPN+. Rotulá-lo como “inofensivo” ou “sanitizado” seria subestimar a abordagem franca e descomplicada com que o filme se apresenta.

*Quinze Dias estreia em 18 de junho nos cinemas brasileiros.

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