O design sonoro não salva uma trama que mal compreende a si mesma
Como muitos de seus predecessores no gênero de terror, Undertone demonstra uma atração inevitável pela simbologia cristã. O diretor e roteirista Ian Tuason, fazendo sua estreia em longa-metragens, explora intensamente a fé ardente da mãe de Evy (Nina Kiri), a protagonista. A narrativa se perde em longas cenas de crucifixos nas paredes, imagens de Jesus Cristo com o coração exposto e ferido, e estatuetas da Virgem Maria cercada por anjos, elementos visuais recorrentes no horror desde suas origens.
Pode-se argumentar que tal conexão é relevante para o subtexto (ou, considerando a falta de sutileza do roteiro, talvez seja mais correto chamar de texto) do filme, que tenta abordar a culpa cristã e o conflito entre as moralidades rígidas com as quais fomos criados e as realidades dos nossos desejos e necessidades na vida adulta. No entanto, a verdade é que Undertone aborda essa temática e suas implicações para a trama com um cinismo que sugere um encontro acidental com a ideia, enquanto tentava replicar fórmulas de sustos mecânicos bem-sucedidos em outros filmes.
Esse aspecto do “terror cristão” não é o único que Tuason explora no filme. O terror analógico também é um foco, com a intenção de provocar medo através dos mecanismos de viralidade da internet e o desconforto que tecnologias obsoletas podem causar nesse contexto. Por isso, Evy é retratada como apresentadora de um podcast de histórias de terror, e junto com seu colega de programa (voz de Adam DiMarco), eles investigam um caso particularmente assustador baseado em gravações de áudio recebidas por um e-mail anônimo.
Undertone tenta unir essas duas vertentes de maneira um tanto desajeitada. Gravando o episódio do podcast na casa de sua mãe (Michèle Duquet), que está muito doente, Evy é forçada a enfrentar sua relação com a matriarca, o sistema de crenças que ela representa, e como ela se sentiria sobre a direção que a vida da filha tomou. Tudo isso enquanto escuta uma história de terror sobre maternidade que se torna progressivamente mais próxima e desconfortavelmente relevante para sua própria situação.
A impressão que se tem é que Tuason estava realmente interessado em criar um filme de terror focado no aspecto sonoro. É uma ideia excelente, que rende momentos interessantes ao longo do filme, explorando o isolamento causado pelos fones de ouvido usados por Evy e a imprevisibilidade dos áudios misteriosos. Com uma equipe de design de som de primeira (David Gertzman, Seth Copeland, Dane Kelly), Tuason consegue provocar a ansiedade típica do gênero de forma bastante eficaz.
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Entretanto, focando tanto nesse elemento, parece que todos os outros aspectos de Undertone foram negligenciados ou simplesmente copiados de filmes melhores. A reviravolta no segundo ato, que revela o grande antagonista cosmológico da trama, remete a Hereditário; a surpresa final, revelando Evy como uma narradora pouco confiável de sua própria história, lembra O Sexto Sentido; e outros elementos, da conexão cristã ao vídeo amaldiçoado que pouco adicionam à trama principal, parecem incluídos apenas para preencher um checklist do terror moderno.
Ao final, a ênfase no design de som – e a atuação comprometida de Nina Kiri – é insuficiente para compensar uma narrativa tão derivativa e desinteressada em si mesma.
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Especialista em mídia digital e televisão, Alba Baptista traz uma expertise detalhada para a categoria “TV” do VCFAZ.TV. Natural de Lisboa, ela explora as últimas tendências em programação televisiva, oferecendo críticas e análises que capturam e informam os entusiastas da TV.