Dia D com Spielberg: Redescubra o Encanto e o Deslumbramento

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Diretor de E.T. e Contatos Imediatos apresenta espetáculo visual com trama que remete a sua consagrada filmografia.

Não é surpreendente que, ao retornar ao gênero que o consagrou como diretor, Steven Spielberg apresente um filme que busca evocar as emoções que ele tanto preza em transmitir ao seu público. Em um thriller de ficção científica, Dia D narra a jornada de um grupo rebelde determinado a expor a existência de vida extraterrestre, convidando o público a se maravilhar mais uma vez. Segundo um colega de Spielberg, este filme é o “filme do rosto de Spielberg”.

Essa expressão se refere, evidentemente, à expressão de surpresa, admiração e temor que os personagens principais dos seus filmes clássicos exibem nos momentos cruciais de suas narrativas. Imagine a reação de Dr. Alan Grant, interpretado por Sam Neill, ao ver dinossauros pela primeira vez ou a de Ray Ferrier, personificado por Tom Cruise, ao testemunhar uma nave de guerra alienígena emergindo do solo. São cenas comuns que revelam o extraordinário. Há muitos desses momentos em Dia D, e isso não é coincidência. Spielberg busca não apenas criar uma imagem impactante, mas também entender e transmitir o efeito dessa imagem no espectador.

De fato, este talvez seja o filme mais metalinguístico de Spielberg – ainda que de maneira sutil, diferente de sua cinebiografia Os Fabelmans. À medida que Daniel Kellner, interpretado por Josh O’Connor, foge da agência enigmática onde trabalhava, Dia D se aprofunda na nossa fascinação pelo espetacular, elemento que Spielberg vem explorando em telas de cinema desde a década de 1970. Daniel é um especialista em cibersegurança que, junto a colegas liderados pelo idealista Hugo Wakefield (Colman Domingo), estava sob as ordens do vilão Noah Scanlon, vivido por Colin Firth com um toque de caricatura, para ocultar quase oitenta anos de encontros extraterrestres. Agora, ele busca revelar a verdade.

O filme começa de forma acelerada, com Daniel já em fuga das autoridades junto com sua namorada Jane (Eve Hewson), e logo ele se encontra com Maggie (Emily Blunt), uma jornalista meteorológica com uma ligação misteriosa com os alienígenas, que se torna o ponto alto do desenvolvimento de personagens do filme. Dia D talvez não apresente personagens tão marcantes quanto outros filmes de Spielberg. Mesmo operando frequentemente como arquétipos, os heróis de suas histórias costumam ter personalidade suficiente para ganhar nossa torcida, o que não ocorre com Daniel. No entanto, com Maggie, Dia D realiza duas tarefas vitais: ela introduz o público ao mistério e ao suspense da trama e se torna o elemento mais intrigante do roteiro de Spielberg e David Koepp. Eventualmente, fica claro que a trama não pode prosseguir sem ela, e Blunt brilha no papel, inclusive explorando seu talento para a comédia, lembrando sua personagem em O Diabo Veste Prada.

A trama que une esse grupo improvável possui tons de thriller conspiratório, onde o segredo já foi descoberto e o desafio agora é divulgá-lo ao mundo. É interessante que Dia D seja lançado poucas semanas após o governo Trump ter liberado documentos confidenciais sobre OVNIs, mas os segredos que Daniel detém são muito mais significativos do que simples fotos desfocadas ou vídeos de baixa qualidade, com implicações que vão além de meros jogos políticos. Com duas grandes sequências de perseguição, incluindo a cena do trem, que promete ser um marco na carreira do diretor, Dia D coloca a revelação desses segredos como algo capaz de desafiar (ou confirmar) a fé em Deus e alterar (ou intensificar) conflitos globais.

Esses temas – mídia, religião, guerra – não são explorados profundamente, mas servem como veículos para Spielberg discutir sua tese principal: o poder imensurável de testemunharmos algo incrível. Mesmo nos momentos mais tensos do filme, que envolvem o uso de tecnologia alienígena assustadora, somos constantemente lembrados do “olho”. Nossa visão e aquilo que a captura ou direciona são centrais em Dia D. Spielberg posiciona as telas – de celulares, computadores e televisões – como mediadoras dessa experiência. Afinal, ele é um dos maiores defensores (e criadores) da experiência comunal de cinema.

O espetáculo é essencial em Dia D, não apenas porque contextualiza a vida ou o trabalho de Spielberg de uma nova maneira, mas porque depende da conexão elementar entre fenômenos inexplicáveis e sua representação impactante. A narrativa é eficiente o suficiente para reforçar essa ideia, mas é na construção visual que Dia D nos conquista. É uma abordagem necessária não só para o sucesso do filme, mas também para sua relevância. Em uma era dominada pela inteligência artificial e redes sociais, simples combinações de luz e som não são mais suficientes. Vivemos em um tempo onde a imagem de discos voadores foi tão popularizada (inclusive por Spielberg em E.T. e Contatos Imediatos) que só nos impressionam se forem apresentadas de forma realmente espetacular.

Assim, Spielberg cria uma odisséia visualmente estonteante. Suas composições transformam cada cena em um jogo de gato e rato, e quando sua câmera começa a se mover para acompanhar a ação, a maestria de sua cinematografia se torna clara em um nível intelectual, mas, crucialmente, também em um nível físico e emocional. Dia D propõe que essa emoção coletiva transcende todas as barreiras e revive nosso fascínio pelo fantástico. Esse arrepio afeta todos, crentes e ateus, soldados e civis, burocratas e comunicadores. É a sensação cinematográfica involuntária de olhos arregalados e queixo caído. Para Spielberg, isso é profundamente humano. Em Dia D, ele busca unir toda a humanidade em um grande “rosto de Spielberg”.

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