John Malkovich brilha em Cavalo Selvagem Nove, um dos melhores filmes do ano!

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Martin McDonagh apresenta novamente uma parceria memorável em um enredo que explora amizade em tempos de adversidade e tristeza

As criações de Martin McDonagh frequentemente examinam a humanidade com um olhar irônico. Desde assassinos em um destino turístico em Na Mira do Chefe, passando pelo comportamento volátil de uma mãe que busca justiça em Três Anúncios para um Crime, até o término abrupto de uma amizade em Os Banshees de Inisherin. McDonagh utiliza esses elementos em narrativas que discutem temas como culpa, julgamento moral e falhas nos sistemas, além de tocar na Guerra Civil Irlandesa. Com seu novo filme, Cavalo Selvagem Nove, a abordagem se mantém.

Desta vez, McDonagh foca mais nos aspectos políticos do que nos sociais. Situando a trama no Chile de 1973, dias antes do golpe de estado liderado por Augusto Pinochet e do assassinato do presidente Salvador Allende, o diretor direciona sua crítica à Operação Condor e à paranoia da era Richard Nixon nos Estados Unidos.

A história segue dois agentes da CIA que, preparando o golpe militar no Chile, decidem fazer uma pausa para “férias” na Ilha de Páscoa. O que parece ser um descanso esconde outros planos: Chris (John Malkovich), que está perdendo a memória, pretende aproveitar o tempo para escrever suas memórias sobre a agência de inteligência americana. Lee (Sam Rockwell), seu parceiro, tem a missão secreta de descobrir um grande segredo que Chris planeja revelar em seu livro.

Dois homens discutindo em um aeroporto antigo
Cena inicial com os agentes da CIA que revelam seu propósito.

Martin McDonagh faz o que sabe fazer de melhor: integra críticas sociais e políticas com diálogos reflexivos e sarcásticos, isolando seus personagens principais e usando a violência — tanto física quanto verbal — para intensificar suas mensagens. Um dos melhores momentos ocorre no começo do filme, quando Chris revela a duas jovens turistas no aeroporto que ele é um agente da CIA e está no país para desestabilizar a democracia. A interação entre eles e a resposta rápida de Lee são memoráveis, demonstrando a habilidade do cineasta em lidar com temas complexos.

A trama mergulha nas maquinações dos EUA na instauração de ditaduras na América do Sul, sem a intenção de ser um relato histórico didático. Allende, Pinochet e o 11 de setembro orquestrado pelos EUA no Chile — 28 anos antes do ataque de Osama Bin Laden — são introduzidos de maneira simples e natural nos diálogos, nunca parecendo uma lição de história. Em um ponto, a trama traz o reencontro dos protagonistas com as jovens do aeroporto, agora em um bar durante um show de Víctor Jara, um artista pró-democracia que foi assassinado no campo de concentração do Estádio Chile, em Santiago. Enquanto Jara se apresenta, Chris detalha o plano americano como se fosse uma grande previsão do terror pelo qual seu país seria responsável.

Através da excelente atuação de John Malkovich, o filme aborda a questão da memória. Um homem à beira de perder sua própria mente é encarregado de relatar repetidamente os horrores e as tragédias humanas. Malkovich brilha ao interpretar Chris, que, ao perder suas memórias, abandona também seu nacionalismo exacerbado. Lee, interpretado por Sam Rockwell, é um agente mais jovem e menos experiente, ainda não marcado pelas décadas de serviço do colega, com uma justificativa irônica de que “só matou oito”. Enquanto em Os Banshees de Inisherin os personagens se distanciam cada vez mais, em Cavalo Selvagem Nove há uma aproximação, como se o conhecimento de Chris abrisse os olhos de Lee para o que ele tanto defendia.

Homem mais velho segurando um caderno, aparência pensativa
A memória em risco: o papel de Chris na narrativa.

McDonagh também utiliza animais em sua narrativa, neste caso, os cavalos mencionados no título, como símbolos de liberdade. Em um momento, o animal é usado como metáfora para a morte dessa mesma liberdade, antecipando os eventos que ocorreriam em Santiago. Os Moais, ou “grandes cabeças” da Ilha de Páscoa, também são destaque e proporcionam momentos cômicos com Malkovich, especialmente quando ele descreve as semelhanças das estátuas — uma crítica aguda ao preconceito do conservadorismo americano e ao desrespeito por culturas diferentes.

Cavalo Selvagem Nove é mais um capítulo exemplar na série de duplas criadas por Martin McDonagh em cada um de seus filmes. Com um ritmo envolvente e um elenco estelar que inclui Steve Buscemi, Parker Posey e uma participação especial de Tom Waits, o diretor e roteirista mantém sua narrativa coesa, equilibrando humor com a melancolia da missão final de Chris e suas memórias carregadas de sombras e dor. Essas dores, ele tenta aliviar momentaneamente com morfina, mas as marcas deixadas pelo seu trabalho e pelos EUA permanecerão eternas, seja através das feridas do golpe militar ou na disseminação global do queijo cheddar processado.

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