Mulher Aranha: espetáculo e história impactante em um só beijo!

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O filme de Bill Condon revela que o espetáculo e a resistência são inseparáveis

O Beijo da Mulher Aranha, desde sua concepção pelo escritor Manuel Puig nos anos 70, se apresentou como uma narrativa multifacetada. Além de uma crítica ao regime militar argentino da época, a obra é um tratado sobre sexualidade e gênero e uma homenagem à capacidade de fuga oferecida pelo cinema de Hollywood. Preso por ser homossexual, Molina compartilha com seu companheiro de cela, Valentín, um ativista contra a ditadura, as tramas dos filmes glamourosos que marcaram sua juventude. Esses “filmes dentro do livro” não só provocam confrontos ideológicos entre os dois, como também refletem a evolução de seu relacionamento e os ajudam a sobreviver às torturas dos carcereiros.

Em 1985, o diretor Hector Babenco, argentino naturalizado brasileiro, adaptou a obra de Puig para as telas em uma coprodução Brasil-EUA, escalando Sônia Braga como a estrela dos filmes narrados por Molina. O elenco contou ainda com importantes atores brasileiros como José Lewgoy, Milton Gonçalves e Fernando Torres, além dos atores hollywoodianos Raul Julia e William Hurt. Babenco trouxe um rigor formal à transposição, ambientando a história durante a ditadura militar brasileira, e Sônia Braga brilhou como uma diva do cinema, inspirada em figuras icônicas como Marlene Dietrich e Greta Garbo, com um toque distinto latino.

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O filme original, que chegou a ser indicado a quatro Oscars, mostrava uma linha cada vez mais tênue entre as narrativas dos filmes e a dura realidade dos protagonistas. Parecia que Babenco e o roteirista Leonard Schrader estavam gradualmente descobrindo como a fantasia reflete e suporta a realidade. No entanto, na nova versão de O Beijo da Mulher Aranha, que estreou recentemente (26) no Festival de Sundance 2025, essa linha é atravessada quase que imediatamente, como se nunca tivesse existido.

Essa abordagem é uma necessidade trazida pela nova inspiração do filme, que deixa de lado a obra de Babenco e se baseia no musical da Broadway de 1995, criado por Terrence McNally, John Kander e Fred Ebb. A ideia de transformar os relatos de Molina em musicais ao estilo da MGM dos anos 1940 surgiu ali, e o diretor Bill Condon, um aficionado por musicais e experiente em adaptações como Chicago e Dreamgirls, executa essa visão com precisão. As sequências de fantasia no novo O Beijo da Mulher Aranha são esplêndidas e coloridas, repletas de rigidez dramática e um melodrama incontido.

A escolha de Jennifer Lopez como estrela dos filmes dentro do filme é tão acertada quanto a escolha de Braga em 1985. Se Braga evocava Garbo e Dietrich, Lopez encarna Rita Hayworth e Dolores Del Río, explorando a dignidade forçada que essas atrizes tinham de exibir para justificar os papéis estereotipados que lhes eram impostos. Embora a atuação de Lopez não seja um feito dramático por si só, ela encontra no espetáculo da dança, da moda e da feminilidade uma maneira de ser venerada, um prêmio de consolação apropriado para divas incompreendidas.

Condon é astuto ao também filmar a outra metade da história, aquela situada na prisão, com a gravidade necessária, mas sem um rigor que deslocaria os saltos fantasiosos do enredo. O mundo em cores sóbrias de Molina e Agustín, interpretados desta vez por Tonatiuh e Diego Luna, permite ainda que o drama, o sonho e os delírios dos números musicais transbordem de um universo para o outro do filme, realçando os ideais elevados que unem o espetáculo romântico de Hollywood e a luta política pela liberdade. No fim, o que realmente une os dois protagonistas é o amor.

A vida é boa, e sua beleza reside no amor”, reflete Molina em um momento do filme. O amor que floresce entre os dois na cela é o mesmo que inspira a revolução e a busca pela liberdade, uma liberdade que, afinal, desejamos usar para amar mais e melhor. Assim, Hollywood e seus romances de “felizes para sempre” mostram-se úteis e surpreendentemente sinceros, seja no sacrifício ou no triunfo, pois nos incentivam a continuar acreditando em um amor ao menos possível. E isso já é razão suficiente para continuar lutando por ele.

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