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É fascinante observar que o novo projeto de Ryan Coogler no cinema independente, desde sua obra Fruitvale Station – A Última Parada de 2013, se destaca como o mais emocionante e pessoal. Após conquistar o sucesso com franquias de bilhões de dólares como Creed e Pantera Negra, o diretor americano mergulhou em suas raízes para criar uma narrativa sobre as divisões étnicas e sociais nos Estados Unidos, uma nação que por séculos tem consumido seus cidadãos negros e vulneráveis, usando o terror como uma metáfora para revelar os pecados intrínsecos a cada um de nós.
Consistente com sua carreira, Coogler escolhe o entretenimento como uma lente para explorar temas muito mais profundos. Pecadores é um drama histórico emocionante e meticulosamente pesquisado que retrata o blues como a música do diabo, como era estigmatizada pela elite preconceituosa americana no início do século XX, antes de o cineasta tentar reinterpretá-lo, conectando suas origens à mitologia das religiões afro-brasileiras que permeiam as crenças dos descendentes de escravizados.
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No enredo, o artista de R&B Miles Caton faz sua estreia como ator interpretando Sammie, um jovem e talentoso guitarrista e cantor de blues, filho de um pregador. Sammie é primo dos gêmeos Smoke e Stack, ambos vividos de maneira intensa por Michael B. Jordan. Eles se envolveram com gangues em Chicago, trabalhando para o lendário Al Capone, e retornam ao seu lar no sul do Mississippi, um dos estados mais segregacionistas dos EUA, com dinheiro para investir em seu próprio espaço de entretenimento, um refúgio para a comunidade negra se divertir sem enfrentar discriminação.
Embora o marketing tenha introduzido Pecadores como um filme de vampiros, a obra de Coogler tem um subtexto muito mais rico que transcende um simples conto de terror. A mística em torno dessas criaturas serve de alegoria para expor o pecador em cada um de nós, criando um vínculo sobrenatural entre as pessoas. Mais significativamente, Pecadores reflete sobre a experiência dos negros americanos, uma realidade que, segundo o filme, abrange desde a adoção da criminalidade como meio de superar a opressão até o suposto “pacto com o diabo” que Robert Johnson, um dos pioneiros do blues, teria feito em busca de sucesso e fortuna.
Inspirando-se na história de sua própria família para moldar as trajetórias de Smoke e Stack, Coogler trata Pecadores como uma reconciliação com o passado. Seus personagens ouvem as músicas que seus antepassados ouviam e vivem as mesmas realidades sombrias. Em diversos momentos, o cineasta celebra essa história como um hino à liberdade que a população negra buscava e encontrava em espaços de festa. Ele faz isso de forma tão magistral que a sequência parece quebrar as barreiras do tempo, assim como no filme.
Jordan se destaca como os gêmeos protagonistas – Smoke, o mais maduro e voltado para os negócios, cuida de Stack, cujo espírito livre e descuidado é evidente desde o começo. O ator consegue captar a vulnerabilidade em ambos, abraçando este papel duplo como um dos melhores de sua carreira. Os interesses amorosos dos irmãos são essenciais para seu desenvolvimento; Mary, interpretada por Hailee Steinfeld, irradia um calor e um desejo quase sensual de ser notada por Stack, enquanto Annie, de Wunmi Mosaku, é doce e igualmente sedutora, representando a mulher que Smoke deixou para trás. A primeira vista, eles poderiam ser os vilões, mas ainda assim é impossível ignorar seu lado humano ou pelo menos o instinto de sobrevivência — até que os verdadeiros demônios surgem, tornando essas questões mundanas irrelevantes.
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Pecadores poderia ser visto como dois filmes distintos em um só – e Coogler erra nisso, já que toda a trama dos vampiros parece fora de lugar, quase uma sombra do filme ambicioso sobre blues, racismo e misticismo que acompanhamos no começo. No entanto, o diretor sabiamente reconecta os pontos no final, nos lembrando que Pecadores, acima de tudo, nos mostra como a música pode ser um canal vivo para toda a dor e o prazer que unem um povo ao longo dos séculos. Em momentos assim, o diretor reafirma que os filmes, assim como as músicas, ainda têm o poder de crescer e nos emocionar profundamente.
Este texto foi publicado originalmente em 17 de abril de 2026.
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Especialista em mídia digital e televisão, Alba Baptista traz uma expertise detalhada para a categoria “TV” do VCFAZ.TV. Natural de Lisboa, ela explora as últimas tendências em programação televisiva, oferecendo críticas e análises que capturam e informam os entusiastas da TV.