O novo filme de Ridley Scott é uma intrigante fusão de ficção científica apocalíptica, western e drama familiar
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Existe um momento, talvez de uns 10 a 15 minutos, no começo do terceiro ato de Ponto Sem Retorno, onde o filme se transforma completamente, tornando-se algo muito mais interessante do que o que tínhamos visto até então. Em duas sequências distintas, colocadas uma após a outra para um impacto máximo, o diretor Ridley Scott deixa seus instintos mais ousados dominarem uma trama que até agora tinha sido conduzida de maneira bastante contida. Porém, seria ideal se esse fosse o verdadeiro “ponto sem retorno” que o título sugere, porque logo o filme volta ao seu ritmo lento anterior.
É uma pena, também, porque esses momentos destacam uma preocupação filosófica que poderia elevar Ponto Sem Retorno a um patamar superior, ou pelo menos torná-lo um espetáculo mais cativante. Baseado no livro de Peter Heller, o roteiro de Mark L. Smith (O Regresso) apresenta uma ficção científica pós-apocalíptica que guarda mais semelhanças com westerns revisionistas que se popularizaram em Hollywood nos anos 80 do que com qualquer outra obra recente de seu subgênero. Em termos de atmosfera, embora não de qualidade, espere algo mais próximo de Os Imperdoáveis do que de Jogos Vorazes.
Recomendações do Editor
Dessa forma, Ponto Sem Retorno explora os arquétipos clássicos do western para focar nas dinâmicas subliminares que eles representam – neste caso, o conflito entre uma geração marcada e traumatizada pela violência e outra que se agarra ao idealismo por ter mais desejo de viver do que medo de morrer. Essa narrativa poderia se aplicar tanto aos primórdios dos Estados Unidos quanto a qualquer parte do mundo onde pais e filhos do século XX precisem compartilhar um lar, uma mesa… ou uma fazenda fortificada para afastar saqueadores após uma pandemia global dizimar grande parte da população mundial.

Há substância aqui, ideias e dinâmicas que poderiam engajar o público. O mecânico Hig (Jacob Elordi), protagonista de Ponto Sem Retorno, se esconde em um antigo aeroporto com o veterano militar Bangley (Josh Brolin). O mais jovem sonha em usar seu pequeno avião, um dos últimos em funcionamento no país, para buscar uma nova comunidade longe dali; o mais velho o desencoraja, temendo que o vírus que devastou o planeta ainda esteja ativo e que os saqueadores que ocasionalmente atacam sua fortaleza se tornem mais frequentes no campo aberto.
Explorando temas de busca versus proteção, esperança versus resignação, o filme não traz novidades surpreendentes para o gênero, mas clichês existem por uma razão, e Ponto Sem Retorno poderia ser uma meditação única sobre esses temas dentro de um contexto sci-fi, se assim o desejasse. No entanto, Scott e seus colaboradores, especialmente Erik Messerschmidt na fotografia, optam por construir esse mundo com um olhar estéril, que prioriza a eficiência dramática em detrimento dos temas mais profundos que o filme poderia explorar.
Muitas críticas foram feitas ao estilo de direção de Scott em seus sets – e isso foi comentado durante a promoção de Ponto Sem Retorno, com Josh Brolin mencionando que quase pediu demissão nos primeiros dias de filmagem. Usando múltiplas câmeras simultaneamente para capturar as cenas mais rapidamente, Scott frequentemente dispensa ensaios em favor de uma abordagem mais direta com os atores. Normalmente, isso apenas significaria mais trabalho para os editores Sam Restivo e Claire Simpson na pós-produção, e filmes como Casa Gucci e Napoleão certamente mostraram que a abordagem de Scott tem seus méritos.
Mas aqui, especificamente, parece que essa obsessão por fazer tudo mais rápido e mais eficiente é um entrave. O roteiro de Ponto Sem Retorno busca uma reflexão que requer detalhamento, proximidade, silêncio – tudo o que Scott parece sentir que não tem mais tempo para apreciar, aos 88 anos. Por isso, ele inclui, quase impacientemente, duas sequências onde o brilho do que ele sabe fazer superficialmente supera qualquer preocupação com o que se passa nos bastidores. Esses 10 ou 15 minutos são bem mais interessantes porque quem os criou estava genuinamente mais envolvido.
Aí está o filme que Scott precisava, sabia, podia e queria fazer. Ironiamente, fingir o contrário só nos faz perder tempo.
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Ponto Sem Retorno

The Dog Stars
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Aventura, Ficção científica, Thriller
100 min
Ridley Scott
Mark L. Smith, Peter Heller
Jacob Elordi, Josh Brolin, Margaret Qualley, Guy Pearce, Allison Janney, Benedict Wong, Alara-Star Khan
26 de agosto de 2026
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Especialista em mídia digital e televisão, Alba Baptista traz uma expertise detalhada para a categoria “TV” do VCFAZ.TV. Natural de Lisboa, ela explora as últimas tendências em programação televisiva, oferecendo críticas e análises que capturam e informam os entusiastas da TV.