Desire and confusion lack in The Purge of sex
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Em Hollywood, poucas coisas são tão supervalorizadas quanto a Black List, uma lista não oficial que circula pelas agências de talentos em Los Angeles, classificando os melhores roteiros originais ainda não produzidos na indústria. Um exemplo claro disso é Só por Uma Noite, que liderou a Black List de 2024, mas o filme resultante desse roteiro, na melhor das hipóteses, é uma comédia romântica com uma boa ideia que não foi bem explorada.
Qual é essa ideia, então? Imagine um futuro semelhante ao de The Purge, mas em vez de uma noite de crimes liberados, o governo americano estabelece uma noite de liberdade sexual para sua população. Neste cenário distópico, controlado pelos conservadores, todos os outros 364 dias do ano são de celibato obrigatório para os solteiros. Isso, sem dúvida, gera uma demanda reprimida intensa, e no filme, os solteiros de Nova York respondem à noite de liberdade sexual como verdadeiros felinos em pleno carnaval.
Pelo menos, essa é a teoria. No fim de semana de lançamento, antes de o filme decepcionar nas expectativas de bilheteria, o diretor e roteirista Will Gluck concedeu uma entrevista à revista Variety explicando que cortou várias cenas de nudez e sexo após feedback de sessões-teste. Segundo Gluck, essas cenas distanciavam as pessoas do filme e eram uma distração, pois o foco deveria estar em um único casal, interpretado por Monica Barbaro e Callum Turner, que passa a noite tentando se conectar e se desencontrando enquanto tentam ficar com outras pessoas antes que o tempo acabe.
Dessa descrição, parece que Só por uma Noite segue a formula tradicional de comédia romântica de encontros e desencontros amorosos. O filme tem aquele momento inicial meio desconfortável, depois os personagens se aproximam, enfrentam um teste de confiança no terceiro ato e, eventualmente, resolvem suas diferenças. O filme também tenta defender o amor romântico, usando a noite de libertinagem como uma metáfora para o mundo das redes sociais e aplicativos de namoro, onde a abundância de opções acaba sendo uma grande distração.
O verdadeiro problema de Só por uma Noite não é necessariamente essa mensagem sobre o amor romântico, pois isso é típico do gênero e seria estranho se o filme desviasse dessa norma. O problema é que, mesmo como comédia romântica, ele não é muito eficaz. A química entre Monica Barbaro e Callum Turner é fraca, e o aspecto caótico e sensual que o marketing promove como o “The Purge do sexo” está longe de ser concretizado. Procurando um filme picante e caótico pelas madrugadas de Nova York? Talvez seja melhor assistir a um clássico como Depois de Horas, de Martin Scorsese, como referência.
De fato, se você assistir qualquer comédia adolescente como Superbad ou Projeto X, provavelmente encontrará um filme melhor, pois a noite de despedida do ensino médio, com os adolescentes desesperados para perder a virgindade, também é uma corrida contra o tempo. O que Só por uma Noite oferece, como muitos outros filmes de “alto conceito”, é uma aposta no literalismo.
Você não precisa ir muito longe para encontrar comédias românticas inteligentes e cheias de desejo, uma delas é Todos Menos Você, dirigida pelo próprio Will Gluck. Parte da frustração com Só por uma Noite pode vir do fato de que este diretor tem se mostrado uma voz irônica e competente dentro desse gênero em filmes que reinterpretam comédias clássicas de Shakespeare, como A Mentira e Todos Menos Você. Infelizmente, Gluck falhou em um filme que exigia uma representação mais vívida do cenário caótico prometido, e a resposta das bilheterias mostra que desta vez algo se perdeu pelo caminho.
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Talvez exista uma lição aqui. Este caso de Só por uma Noite ilustra como Hollywood sofre atualmente uma crise que não se limita a falta de criatividade. Na verdade, há criatividade em excesso nos departamentos de marketing na hora de promover um projeto como esse The Purge do sexo. O problema é que uma boa ideia para vender não se transforma automaticamente numa boa história para contar.
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Especialista em mídia digital e televisão, Alba Baptista traz uma expertise detalhada para a categoria “TV” do VCFAZ.TV. Natural de Lisboa, ela explora as últimas tendências em programação televisiva, oferecendo críticas e análises que capturam e informam os entusiastas da TV.