Superman – O Retorno ainda é necessário e merece nova chance!

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O filme de Bryan Singer carrega todas as expectativas que tínhamos para a nova obra de James Gunn

Já se vão quase duas décadas desde a primeira vez que testemunhei um homem voando no cinema. Corria o ano de 2006, e os aficionados por filmes e séries dependiam ainda de materiais impressos – revistas e jornais – para acompanhar as novidades sobre lançamentos futuros, cujas datas eram um mistério. Informações de bastidores, rumores, previsões… isso tudo era raro. Aguardávamos ansiosamente por uma reportagem especial de uma visita ao set, um pôster ou um trailer no Quicktime anunciando “em breve”. Naquela época, o Omelete tinha apenas seis anos de existência e realizava sua primeira visita internacional a um set, como você pode conferir aqui. A internet já era “acessível com um clique”, mas a realidade não era bem essa. Nesse contexto, Superman, o herói mais icônico do mundo, estava prestes a retornar às telas, sob a direção do mesmo cineasta que trouxe os X-Men para o cinema moderno.

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Superman – O Retorno representava para os fãs da DC o que A Ameaça Fantasma representou para os seguidores de Star Wars. O primeiro filme de Richard Donner, de 1978, ainda era frequentemente reprisado na TV, mas com o tempo foi sendo deixado de lado. O terrível Superman IV – Em Busca da Paz, último filme de Christopher Reeve, já contava mais de duas décadas. Batman, que havia brilhado nos filmes de Tim Burton, virou motivo de piada com Joel Schumacher – uma injustiça com Batman: Eternamente – e renasceu com Batman Begins, de Christopher Nolan.

Era o momento para o Homem de Aço retornar. Uma produção de milhões, um vencedor do Oscar interpretando o vilão icônico, efeitos especiais de última geração, novas tecnologias para simular os voos do herói, e um protagonista que parecia uma reencarnação de Reeve. Tudo estava pronto para ser o maior sucesso do ano e marcar o retorno triunfal do personagem aos cinemas. Contudo, a realidade foi mais complicada para o Último Filho de Krypton. A bilheteria foi abaixo do esperado e o público reagiu de forma morna, mesmo com críticas favoráveis, levando o estúdio a descartar qualquer sequência planejada. No fim das contas, Superman – O Retorno foi considerado um fracasso.

Mas será que o mundo estava realmente pronto para o retorno do Superman? E mais, uma continuação do Superman de Richard Donner era o que precisávamos naquele momento? Eu acredito que não.

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A primeira metade dos anos 2000 não é um período marcado por esperança, cores e ingenuidade, como o filme de Bryan Singer captura em seus 150 minutos. A virada do milênio foi um tempo de tensão, refletida em filmes de Hollywood como O Sexto Sentido, Clube da Luta, Beleza Americana, e claro, Matrix. Singer já havia explorado essa melancolia em seus dois aclamados filmes dos X-Men. Os ataques de 11 de setembro só agravaram a situação, e a Guerra ao Terror, iniciada por George W. Bush, sepultou qualquer vestígio de otimismo. Junte isso ao enorme sucesso do Batman de Christopher Nolan, que trouxe uma Gotham e um Cavaleiro das Trevas mais realistas em Batman Begins. A estética de Nolan e o cinismo em relação aos heróis coloridos e aventureiros foram bem recebidos pelo público – eu incluso – e não deixaram espaço para propostas como a de Superman – O Retorno.

O cinema de super-heróis passou muitos anos seguindo a mesma narrativa. A realidade e a tecnologia suplantando o encanto, a aventura e a magia. O próprio Homem de Aço foi reimaginado sob a produção do midas da Warner Bros., Christopher Nolan, e a direção do promissor Zack Snyder. E olha, eu sou fã de Homem de Aço. É uma visão única do diretor sobre o personagem, um aprofundamento no sentido mitológico e uma abordagem diferente de tudo que havia sido feito até então. Se funcionou ou não, é outra história. Claramente, o que veio depois sofreu com a megalomania de Snyder e os problemas internos da Warner. Mas como obra isolada, Homem de Aço, de 2013, é um sucesso tanto de público quanto de formato, pensado para o momento de seu lançamento. Não é à toa que os fãs de Henry Cavill estão tão ligados à imagem de David Corenswet usando o S no peito. Cavill é o Superman dessa geração que cresceu com O Cavaleiro das Trevas e entende que qualquer herói nasce deste cenário sombrio e realista.

Vivemos uma época diferente em 2025. O cinema de super-heróis ainda atrai muitos espectadores, mas não é mais uma garantia de sucesso como antes da pandemia. Além disso, voltamos a viver momentos desesperançosos em 2020, e a política internacional, com suas guerras e massacres pelo mundo, coloca o Relógio do Juízo Final em seus momentos finais. É nesse contexto que James Gunn reintroduz um Superman colorido, com um cachorro de estimação, uma mãe que cuida de seu uniforme e o amor entre o herói e Lois Lane como essência da história. Superman – O Retorno ganha ainda mais relevância.

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A obra de Bryan Singer possui tudo que desejávamos ver no herói novamente. Brandon Routh é um Superman gentil, que sorri de maneira inocente, mas não deixa de demonstrar sua força. E isso vai muito além da força física. O Retorno retoma a visão de Richard Donner, de um herói próximo à população, que desce às ruas, que interage com os cidadãos. O herói que está “sempre por perto”, como ele mesmo diz a Lois. Em um dos momentos mais marcantes da trama, o herói salva Lois, o atual “marido” e o filho, que ele acredita ser do casal. Independentemente do estado do relacionamento dos dois após o desaparecimento do herói por cinco anos, ele se une ao seu “rival”, interpretado por James Marsden, e salva aquela família. Esse ato de heroísmo genuíno leva os três a, minutos depois, retribuir a ação e resgatar o Superman quando ele é atacado por Lex Luthor (Kevin Spacey) e deixado para afundar no oceano. Se a humanidade precisa do Superman, o herói não é ninguém sem essa reciprocidade.

Os “vilões” da história muitas vezes são os próprios erros humanos. Enquanto Lex Luthor é a grande personificação disso, os outros cidadãos da Terra seguem o que os torna únicos: falhar. Seja no desejo de voar mais alto do que podem – como na sequência do ônibus espacial -, na avidez dos ladrões que assaltam um prédio ou no arrependimento de não perceber o plano genocida que apoiam, como acontece com Kitty, personagem de Parker Posey, todos falham em algum momento.

Esses erros são o que Clark, o alter-ego civil, precisa aprender enquanto caminha disfarçado pelas ruas de Metrópolis. Não é à toa que ao salvar a Terra, ele fique desmaiado no espaço em forma de cruz. Zack Snyder não foi o primeiro e nem será o último a fazer alusões bíblicas, como muitos fãs do “visionário” pensam. Na verdade, o diretor falhou ao não entender que mesmo Jesus precisava caminhar entre o povo para compreender quem ele estava salvando. Não se vive apenas de milagres. Kal-El precisa ver o mundo com seus próprios olhos, mas através da perspectiva humana. Só assim ele pode cumprir seu papel como Superman.

Depois de tantos anos sendo ignorado, chamado de tedioso, estático, sem ação, Superman – O Retorno é o filme que precisa ser redescoberto com o início deste novo DC Universe. Uma peça única, que não necessita de prequela ou sequência. Uma obra sobre laços maiores que a distância entre a Terra e Krypton, sobre olhar para o outro e sobre legados. Donner deixou o seu, Snyder também, e agora Gunn dá o primeiro passo com o DCU. O de Bryan Singer também merece ser lembrado. O mundo e o cinema de super-heróis precisam de Superman – O Retorno.

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