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Há uma decepção particular para as séries que um dia amamos. Não é simplesmente assistir algo ruim desde o início, mas sim perceber que uma série que foi excelente não soube como concluir. The Boys, ao longo de três temporadas, destacou-se como uma das melhores séries de streaming, porém, encerrou sua trajetória com uma quinta temporada que certamente entrará para a lista desconfortável de finais insatisfatórios. O problema não reside em um ou dois episódios fracos, mas em uma falta generalizada de ideias ao longo de toda a temporada.
O contexto tem seu peso. A quarta temporada já apresentava inconsistências, filmada durante a greve dos roteiristas de Hollywood e com a responsabilidade narrativa de conectar elementos do spin-off Gen V, que foi cancelado. O quinto ano prometia retificar o rumo e concluir definitivamente as histórias de Billy Bruto (Karl Urban), Capitão Pátria (Antony Starr) e os demais personagens. Esperava-se um grand finale à altura do que a série havia construído, mas o resultado foi diferente: episódios que pareciam deslocados, como se a série ainda tivesse temporadas pela frente.
O principal problema da última temporada é estrutural. Os quatro primeiros episódios carecem de urgência, um erro fatal para uma temporada final. Com a história e os personagens já estabelecidos, e o conflito com Capitão Pátria aparentemente no auge, o arco final demora a ganhar impulso. Há excesso de diálogos, uma reiteração de temas já explorados e uma sensação de que não estamos progredindo, especialmente perto do desfecho. O criador Eric Kripke defendeu os episódios como essenciais para o desenvolvimento dos personagens, mas essa justificativa falha ao não trazer novidades significativas.
O sétimo episódio, penúltimo da série, tornou-se um símbolo desse problema. Foi o capítulo com a pior avaliação de toda a série no IMDb, e não foi por acaso. Contém um longo monólogo de Synapse, na forma de Jeffrey Dean Morgan, alertando sobre os perigos de seguir Billy, uma cena que mais parece um exercício de nostalgia para os fãs de Supernatural ou The Walking Dead, sem adicionar novas informações sobre um personagem já bem explorado. Em uma temporada regular, talvez fossem cenas mais impactantes. Na temporada final, soam como enchimento disfarçado de profundidade.
No entanto, é justo reconhecer que a interpretação de Antony Starr como Capitão Pátria continua excepcional. O ator traz nuances de fragilidade ao personagem, tornando-o fascinante mesmo em meio ao caos. O Homelander como uma figura de poder autoritário, isolado em sua própria onipotência, é um dos retratos mais precisos que a série já apresentou. O humor ácido e a crítica política, marcas registradas de The Boys, também estão presentes: a temporada mantém sua mordacidade quando decide utilizá-la, e há sequências que nos lembram por que essa série foi tão elogiada. Porém, essas qualidades estão perdidas em uma estrutura que não sustenta o peso que carrega.
A questão dos personagens é outro aspecto delicado. The Boys sempre se gabou de que ninguém estava seguro, que os riscos eram reais. A quinta temporada traz algumas mortes significativas: a despedida de Francês (Tomer Capone) é emocionalmente sólida, e a de Trem Bala (Jessie T. Usher) tem seus méritos. Por outro lado, há personagens que deveriam ter concluído suas jornadas há tempos e chegam ao final surpreendentemente vivos, como se a série temesse comprometer certos arcos ou fechar portas para futuros spin-offs.
Esse é talvez o sintoma mais preocupante da temporada: a impressão de que algumas decisões criativas foram influenciadas mais pelo ecossistema da franquia do que pela narrativa em si. O universo de The Boys continuará, com Vought Rising e outros projetos derivados. E é evidente onde a série final fez concessões para não fechar certas portas. Questões que deveriam ser resolvidas permanecem em aberto. Isso não é narrativa, é planejamento de franquia, e o espectador percebe a diferença.
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Os personagens de Gen V também não têm um bom desfecho. Suas aparições beiram o cameo, sem que a série resolva satisfatoriamente o que fazer com eles após dois anos desenvolvendo seus arcos no spin-off. É mais um indício de que The Boys falhou em integrar as partes do universo que ajudou a criar, chegando ao fim com muitas pontas soltas para um episódio final de pouco mais de uma hora.
O final tenta compensar com espetáculo o que a temporada não construiu com consistência. Há violência, resoluções, e momentos que funcionam isoladamente. Mas uma série que foi sobre personagens complexos em um conflito moral intrincável não pode ser redimida por um último episódio de acertos de contas, por mais bem executado que seja. O encerramento de uma história depende do que foi construído antes, e o que se construiu aqui, ao longo de sete episódios irregulares, não fornece uma base suficiente para que o final ressoe como deveria.
The Boys foi, em seus melhores momentos, uma das sátiras mais inteligentes e corajosas da era do streaming. A primeira temporada redefiniu o que uma série de super-heróis poderia ser, e frequentemente ouvíamos o famoso “isso é muito The Boys”. Chegar ao fim com uma temporada que parece desvirtuar a essência da própria série é uma injustiça com tudo que veio antes. Não é uma tragédia, pois os três primeiros anos seguem intocáveis. Mas é um encerramento fraco, e The Boys merecia muito mais do que isso.
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Especialista em mídia digital e televisão, Alba Baptista traz uma expertise detalhada para a categoria “TV” do VCFAZ.TV. Natural de Lisboa, ela explora as últimas tendências em programação televisiva, oferecendo críticas e análises que capturam e informam os entusiastas da TV.