Produção de Michael Showalter oscila entre o visceral e o melodrama
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Fazer cinema exige ousadia — e, se você atua em Hollywood, precisa de ousadia e dinheiro. Foi combinando essas duas qualidades que o diretor Michael Showalter (Uma Ideia de Você) voltou a trabalhar com Anne Hathaway na esperada adaptação de Verity, obra popular de Colleen Hoover (É Assim que Acaba). No elenco, ao lado de Hathaway, estão Dakota Johnson (Madame Teia) e Josh Hartnett (Armadilha), que compõem uma trama repleta de tensão e atmosferas inquietantes.
Fiel ao livro, a história acompanha Lowen Ashleigh (Johnson), uma escritora pouco conhecida e apertada financeiramente, que aceita uma proposta impossível de recusar: concluir uma série literária iniciada pela aclamada autora Verity Crawford (Hathaway), famosa por narrar contos sombrios pela ótica do antagonista. Para realizar a tarefa, Lowen vai morar na isolada propriedade dos Crawford, com o objetivo de vasculhar as anotações da escritora. Lá, ela encontra Verity em estado vegetativo, cuidada por um marido dedicado e pela presença tímida do garoto Crew (Brady Wagner).
Enquanto vasculha rascunhos e notas da autora, Lowen dá de cara com registros que soam como memórias autobiográficas perturbadoras de Verity, e a narrativa começa a se enredar numa zona tênue entre ficção e verdade. Alguns críticos apontam que é nesse ponto que o filme se torna verdadeiramente macabro; eu, no entanto, acredito que as intenções sombrias da obra já ficam claras desde o início. O longa se movimenta com leveza por entre o desconforto e um certo carisma.
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Quando a carreira de Lowen parecia um desastre, surge um telefonema inesperado do seu agente, Corey (Ismael Cruz Córdova), explicando como ela acabou envolvida com a família Crawford. A caminho da casa deles, ela espera o sinal abrir para atravessar a rua; antes mesmo de comemorar o semáforo verde, é surpreendida por uma cena sangrenta: um ciclista fora atropelado na esquina e o sangue do acidente explode sobre o rosto da escritora.
Depois desse episódio no estilo splatter, Lowen recebe ajuda de um desconhecido — que logo se apresenta como o marido de Verity. Ela tenta lavar o rosto ensanguentado numa pia qualquer, mas, apesar da limpeza rigorosa, a maquiagem de Dakota Johnson segue impecável, como se a atriz tivesse acabado de sair de seu trailer. Esse contraste ilustra bem a forma como o diretor salta de um choque brusco para uma cena que trata o acontecimento quase como algo corriqueiro.
Essas decisões revelam que o filme não pretende reinventar o gênero nem conquistar unanimidade entre os críticos; a missão aqui é, antes de tudo, entreter. E não se engane: isso não transforma a produção em algo superficial ou amador. Showalter — acompanhado do diretor de fotografia Jim Frohna — explora várias técnicas visuais ao longo do longa, com destaque para o uso do split diopter, que permite sobrepor tensões em planos distintos dentro do mesmo take, especialmente nas cenas de depoimento à polícia.
O trabalho sonoro, assinado por Volker Bertelmann, também tem papel fundamental na imersão. Enquanto as lentes e a paleta de cores de Showalter e Frohna conduzem o espectador para os recantos sombrios da mansão, a trilha e os efeitos sonoros tornam cada jump scare mais contundente. As transições de tom do filme são sustentadas da mesma maneira pelo desenho sonoro.
No balanço final, o longa acerta em diversos aspectos, mesmo tropeçando num desfecho um tanto anticlimático. Com um diretor que não teme arriscar, Verity alcança um equilíbrio calibrado entre o horror e o tom novelístico, entregando uma experiência que vale a pena ser vivida — quer você goste dela ou não.
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