Karim Aïnouz ensina aos estrangeiros como se faz uma verdadeira sátira psicossexual
Liverpool x Brighton: guia do jogo, onde assistir e prováveis escalações
Premier League: o que é e como acompanhar a liga inglesa
Rosebush Pruning se abre com uma sequência visual de tirar o fôlego, montada como se fosse uma pintura a óleo: o mar escaldante da Catalunha aparece como uma faixa geométrica sob um horizonte apenas um pouco mais claro. A grandiosidade dessa imagem já indica a forma com que o cearense Karim Aïnouz (A Vida Invisível, Motel Destino) encarou seu segundo filme em inglês — acima de tudo, um exercício estético.
Pela lente de sua diretora de fotografia de confiança, Hélène Louvart, Aïnouz realiza enquadramentos de puro excesso visual, que conversam com personagens igualmente extravagantes: Ed (Callum Turner), Jack (Jamie Bell), Anna (Riley Keough) e Robert (Lukas Gage) são os quatro herdeiros de uma família abastada que, no entanto, cresceram aprisionados por uma dinâmica doméstica rígida e carregada de sexualidade, a qual os impediu de amadurecer de modo saudável. Quando Jack apresenta à família sua nova namorada, Martha (Elle Fanning), esse castelo de cartas começa a ruir.
Não surpreende que o roteiro seja assinado por Efthimis Filippou, o roteirista grego famoso por sua colaboração com Yorgos Lanthimos em filmes como Dente Canino, O Sacrifício do Cervo Sagrado, O Lagosta e Tipos de Gentileza. A propensão ao escândalo está presente, assim como a predileção por personagens que tentam escapar de uma rede de abusos apenas para ficarem ainda mais imersos nela. Inspirando-se, de forma distante, em um clássico italiano — De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio —, Filippou volta seu olhar distorcido para os privilegiados: não só para criticar sua futilidade e materialismo, mas também para se divertir com esses mesmos personagens.

24 de outubro: por que a data é o 297.º dia do ano e o que marcou a história
Carla Visi levou axé a Lisboa no Brasil Origem Week
Continua depois da Publicidade
<div class="banner banner–arroba-1
“>
E arrisco dizer que Aïnouz compreende esse ímpeto até melhor do que Lanthimos. O rigor seco do cineasta grego — que realçava as estranhezas dos textos de Filippou através de uma estética quase ascética — aqui é deixado de lado em favor de um cinema sensorial, onde o desejo sexual, por exemplo, não precisa ser um choque em si, mas aparece como uma consequência natural de personagens que nos são fáceis de reconhecer. São figuras patéticas, sem dúvida, mas quem entre nós não é? Aïnouz abandona a postura condenatória para adotar uma identificação ambígua.
Essa opção estética também funciona para tirar o melhor de seu elenco. Atores parecem prosperar sob a direção de alguém que nutre afeição por suas personagens, e em Rosebush Pruning cada interpretação se ajusta ao que o filme pede: Turner surge libidinoso e afetado como Ed, talvez nunca tão fotogênico quanto filmado por Aïnouz e Louvart; Bell é uma fúria contida em forma compacta; Gage e Keough deslizam pela narrativa como seres feitos de seda em vez de carne; e, como os patriarcas da família, Tracy Letts e Pamela Anderson brilham quando exploram o grotesco.
Se muito se tem comparado o filme ao trabalho de Lanthimos, há também outro cineasta contemporâneo ao qual Rosebush Pruning será inevitavelmente relacionado: Emerald Fennell. Em especial seu polêmico Saltburn (2023), que compartilha com Aïnouz o desejo de criticar o privilégio (até a segunda página…) e a inclinação pelo escandaloso, além de algumas cenas de morte próximas ao desfecho. Mas Rosebush envolve onde Saltburn afasta, atinge onde Saltburn se mostra acadêmico, e sustenta uma ambiguidade moral própria onde Saltburn parece apenas empregá-la como artifício promocional.
Posso até estar tendencioso, mas me parece claro que, nessas comparações inevitáveis, não há outro veredicto: vitória folgada do Brasil.
Rosebush Pruning
97 min
Karim Aïnouz
Efthimis Filippou
Tracy Letts,
Jamie Bell,
Pamela Anderson,
Lukas Gage,
Riley Keough,
Elle Fanning,
Elena Anaya,
Callum Turner
