Derek Cianfrance examina corações quebrados dos EUA em “O Bom Bandido”

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As lacunas do sonho americano nos anos 90 sob a visão de um diretor

Já se passaram quase dez anos desde que Derek Cianfrance lançou seu último longa, e talvez você nem tenha assistido a A Luz Entre Oceanos (2016) – o filme não foi muito visto. Com um elenco de peso, incluindo Michael Fassbender, Alicia Vikander e Rachel Weisz, este drama de época que narra a vida de um casal e sua filha adotiva numa pequena ilha australiana passou quase despercebido pelos cinemas, mal conseguindo cobrir seu orçamento modesto de US$ 20 milhões e recebendo críticas tibias.

Não é de surpreender: A Luz Entre Oceanos estava longe do esperado de um filme de Derek Cianfrance. Depois de se destacar com o romance extremamente atual Namorados Para Sempre (2010) e com o thriller criminal O Lugar Onde Tudo Termina (2012), ambientado nos anos 90, o diretor se consolidou como um observador perspicaz das fissuras no sonho americano, especialmente naquela época em que o ideal estadunidense começava a colidir com a complexa realidade do século XXI.

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O Bom Bandido, para alegria dos fãs de Cianfrance, marca um retorno à essa análise. Coescrito pelo próprio diretor e Kirt Gunn (O Som do Silêncio), o filme adapta a história real de um ladrão que ficou meses escondido dentro de uma loja de brinquedos na Carolina do Norte (EUA), fazendo amigos e até começando um romance com uma pessoa da comunidade local, para explorar as mentiras que permeiam a mentalidade americana.

Materialismo, excepcionalismo e uma desesperada necessidade de pertencimento: os pontos fracos do protagonista de O Bom Bandido, Jeffrey Manchester (Channing Tatum), refletem os mesmos desafios enfrentados pelo projeto de nação dos EUA. Cianfrance e Gunn mergulham nessas fissuras sem medo de intimidar o público, mas também sem arrogância – seu julgamento do sonho americano não desumaniza os personagens, nem adota um cinismo total sobre eles.

É por isso que o excelente elenco do filme tem espaço para brilhar. Tatum é o ponto central, revelando uma profunda melancolia e desajuste que não eram evidentes no ator de Magic Mike e Se Ela Dança, Eu Danço. Ele é excepcionalmente apoiado, principalmente por Kirsten Dunst, que aqui apresenta uma simplicidade frágil que define muitas de suas atuações mais memoráveis (se você ainda não viu Como se Tornar uma Divindade na Flórida, vale a pena assistir!).

Com a colaboração do diretor de fotografia Andrij Parekh, reunindo-se com o cineasta pela primeira vez desde Namorados Para Sempre, Cianfrance captura essas personagens de maneira incrivelmente íntima, apostando não apenas na câmera na mão, mas também em uma textura granulada que transporta o espectador para a época em que o filme é ambientado. O Bom Bandido retrata o final dos anos 1990, pouco antes do 11 de setembro, no auge da ascensão da mídia digital, um período em que ainda não se compreendiam as consequências de um mundo de organizações corporativas que começava a se deteriorar – e a deteriorar as pessoas.

Nesse contexto, Cianfrance volta a focar nos corações partidos de seu país, tratando com generosidade as motivações que seus personagens carregam e as ilusões nas quais eles caem. O Bom Bandido se alinha perfeitamente com as outras obras do cineasta, um artista que revela a angustiante impossibilidade de vencer o sistema jogando o seu próprio jogo. Na América de Cianfrance, todos estão a caminho da tragédia – e é impossível desviar o olhar enquanto caminham para ela.

Avaliação do Crítico

Excelente

Caio Coletti

O Bom Bandido

Roofman

2025

126 min

País:
EUA

Direção:
Derek Cianfrance
Roteiro:
Derek Cianfrance, Kirt Gunn
Elenco:
Emory Cohen, Peter Dinklage, Lakeith Stanfield, Juno Temple, Channing Tatum, Kirsten Dunst

Onde assistir:

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