Ryan Coogler entrelaça música, magia e história em seu filme de terror e ação
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[Alerta de spoilers sobre Pecadores! Se ainda não viu o filme premiado com o Oscar, confira nossa crítica sem spoilers primeiro]
Não é exagero afirmar que Ryan Coogler nos entregou um dos grandes espetáculos musicais recentes com Pecadores. A segunda metade do filme evoca clássicos como Amor, Sublime Amor. Enquanto o filme de Spielberg aborda o conflito de gangues sob a ótica da imigração e gentrificação, Pecadores, estrelado por Michael B. Jordan, apresenta uma luta entre humanos e vampiros ambientada na década de 1930 no Mississippi, focando no apagamento histórico.
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Coogler sempre trouxe em suas obras uma abordagem da cultura pop repleta de referências profundas e significativas. Desde a reinvenção da saga Rocky em Creed, passando pelo sucesso retumbante de Pantera Negra na Marvel, que ganhou quatro Oscars. Esses filmes se destacam pela rica camada de discursos sociais e um uso inteligente de referências culturais, muito por conta da trilha sonora do compositor sueco Ludwig Göransson. Em Pecadores, essa colaboração é ainda mais evidente.
Existem dois momentos em Pecadores que são essenciais para compreender a sinergia entre Coogler e Göransson e as influências na narrativa.
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Atenção para spoilers a seguir.
Blues, magia espiritual e a resistência cultural
Em uma entrevista coletiva que o Omelete participou em janeiro, o diretor de Pecadores destacou que o filme é “sobre a música americana mais do que qualquer outra coisa”. Ele e Göransson exploraram o “Caminho do Blues” no Mississippi e visitaram a cidade natal de B.B. King. A abertura do filme com cânticos gospel e músicos de rua onde Stack e Smoke (ambos interpretados por Michael B. Jordan) inauguram seu juke joint, exemplifica essa jornada.
Os juke joints eram espaços na periferia das cidades onde afro-americanos se reuniam para se divertir durante a Proibição. Eram considerados locais de pecado pela sociedade cristã, especialmente pelas mulheres que viam seus maridos frequentando esses lugares. Artistas de rua buscavam a atenção dos proprietários dos juke joints para tocar e ganhar mais do que alguns centavos. Delta Slim, personagem de Delroy Lindo, representa esses músicos. Charley Patton, pioneiro do Delta Blues, é visto como um herói por Sammy (Miles Canton).
A lenda de Robert Johnson, que supostamente fez um pacto com o diabo para adquirir seu talento extraordinário, permeia o filme e é explicada através do hoodoo, uma tradição espiritual afro-americana retratada na personagem Annie (Wunmi Mosaku). O filme de Coogler utiliza esses elementos para criar uma das cenas mais impactantes de Pecadores.
Quando Sammy toca pela primeira vez no juke de Stack e Smoke, a música envolve a audiência numa experiência que transcende tempo e espaço. Usando um plano-sequência, Coogler nos conduz por uma cena vibrante que mistura diversos elementos culturais, evidenciando o poder unificador da música, o que logo atrai a atenção dos vampiros, metaforizando a luta contra o apagamento cultural.
O esquecimento institucionalizado e a perseverança através da arte
O filme critica a apropriação cultural e o esquecimento sistemático de contribuições afro-americanas, exemplificado pelo título de “Rei do Rock” frequentemente atribuído a Elvis, que foi fortemente influenciado por artistas negros.
A trama reflete a persistência desse esquecimento, promovido por figuras e instituições como o FBI de J. Edgar Hoover, e como isso afetou líderes e artistas afro-americanos ao longo da história dos Estados Unidos. O destino de Sammy no filme, interpretado por Buddy Guy na cena pós-créditos, é um testemunho da resiliência e da riqueza cultural que se mantém apesar dessas adversidades. Coogler, ao retratar Buddy Guy como Sammy, cria um elo direto com nossa realidade, mostrando como a música e a cultura podem transcender as barreiras do cinema tradicional, promovendo um sentido de comunidade e respeito por suas raízes e pela perseverança da arte.
[Texto originalmente publicado com o lançamento do filme em abril de 2025]
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Especialista em mídia digital e televisão, Alba Baptista traz uma expertise detalhada para a categoria “TV” do VCFAZ.TV. Natural de Lisboa, ela explora as últimas tendências em programação televisiva, oferecendo críticas e análises que capturam e informam os entusiastas da TV.