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É impressionante como Parasita, o filme, consegue capturar a atenção do público com uma narrativa que surpreendentemente aborda temas como arquitetura e urbanismo.
Certo, Parasita vai muito além disso, e qualquer tentativa de categorizar o filme de Bong Joon-ho exclusivamente por esses temas pode acabar em frustração. Entre os trabalhos do diretor sul-coreano, famoso por mesclar gêneros, este talvez seja o que mais habilmente navega entre comédia, terror e drama social, tornando essa mistura uma essência narrativa própria.
Recomendações
“Que metafórico”, exclama um personagem ao ouvir uma analogia ou um trocadilho astuto. Bong usa esses diálogos carregados de ironia como uma espécie de proteção contra as armadilhas de filmes que se consideram mais inteligentes que a audiência. Se Parasita conquistou tanto o público quanto a crítica, isso se deve à maneira como o filme envolve os espectadores numa interação que é profunda, mas justa: as reviravoltas do enredo não são sinalizadas por pistas enganosas ou óbvias, e a sofisticação da narrativa não é acompanhada de pretensão.
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As mudanças de tom e de enredo são tão bem executadas, divertidas e inesperadas que até o próprio Bong parece surpreso com o caos instigante provocado por seus personagens. O ator Song Kang-ho, um dos favoritos do diretor, interpreta um pai de família pobre que vive com sua esposa e dois filhos em um semi-subsolo em Seul. A família sobrevive de pequenos truques e, quando um plano contra ricos começa a funcionar, todos se agarram à chance de ascender socialmente e, literalmente, sair do buraco.
Descrever Parasita como uma experiência vertical pode ser uma metáfora bastante apropriada, não só porque se deixar manipular por Bong é um dos prazeres do filme, mas também porque os próprios cenários e dinâmicas entre os personagens seguem uma lógica de altos e baixos. Cenas como a da enchente inicial, quando a família desce a cidade inteira até chegar à velha residência, são visualmente poderosas e carregadas de uma melancolia que sintetiza visualmente uma injustiça social.
O discurso anticapitalista se tornou uma constante no cinema de Bong. Em entrevistas, o cineasta mencionou que O Expresso do Amanhã era um filme de corredores, enquanto Parasita é um filme de escadas, o que revela muito sobre as diferenças entre esses dois trabalhos, especialmente nos seus desfechos. Essa declaração de Bong sublinha a intenção lúdica do diretor com esta montanha-russa de gêneros, com altos e baixos de expectativas e surpresas.
Se a imagem da escadaria representa a brincadeira com tons e gêneros em Parasita, a visão de mundo de Bong Joon-ho é simbolizada pela luz que penetra através de frestas e janelas. A arquitetura da casa dos ricos, especialmente o grande janelão que se abre para o jardim, convida a luz, e o mundo, a entrar, e é nesse convite que a anarquia de Parasita reside. A história até flerta com a ideia de doppelgängers, lembrando o filme Nós de Jordan Peele, alternando entre o mundo da superfície e o subterrâneo.
Parasita evoca Charles Dickens em seu humanismo, como um conto de Natal, onde não faltam presentes e a neve que cai lentamente. Bong combina essa esperança dickensiana, quase inocente, com um futurismo desolador, criando um relato que beira o apocalíptico, onde um conflito nuclear com a Coreia do Norte poderia ser o grande nivelador dos personagens.
Por fim, talvez Parasita seja realmente, em essência, um filme sobre arquitetura — de espaços, de narrativas. “Faça um plano e o mundo vai dar um jeito de desfazê-lo”, diz o protagonista, e um texto que começou sem saber como terminaria só poderia, de fato, terminar voltando ao seu ponto de partida.
Crítica publicada originalmente em 7 de novembro de 2019.
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Especialista em mídia digital e televisão, Alba Baptista traz uma expertise detalhada para a categoria “TV” do VCFAZ.TV. Natural de Lisboa, ela explora as últimas tendências em programação televisiva, oferecendo críticas e análises que capturam e informam os entusiastas da TV.