Diretor apresenta Rosebush Pruning, seu segundo longa em inglês, no Festival do Rio
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Karim Aïnouz rejeita a ideia de adaptar seu estilo para agradar o mercado internacional. “Se quisessem algo no formato deles, contratariam cineastas de lá”, afirma o diretor cearense em conversa com o Omelete, ao comentar sobre Rosebush Pruning — seu segundo filme rodado em inglês, uma produção britânica que reúne no elenco nomes como Callum Turner (Animais Fantásticos), Riley Keough (Daisy Jones & The Six), Elle Fanning (Predador: Terras Selvagens) e Pamela Anderson.
A história acompanha uma família aristocrática fundada em relações perturbadoras, cujo equilíbrio é ameaçado quando o filho mais velho (Jamie Bell) volta para casa com uma nova namorada (interpretada por Fanning). Com forte carga teatral e um erotismo evidente, Rosebush Pruning mistura o tom quase intoxicante que virou a marca de Aïnouz a um roteiro preciso, transitando entre sátira e tragédia sem grandes rodeios.
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“A maior dificuldade foi encontrar como trabalhar nesse terreno: tocar tango com cadência de samba”, diverte-se Aïnouz. “Este filme tem muita escrita, muitos diálogos. Para mim, então, o erotismo acabou virando um recurso maior para trazer a presença do corpo, numa linguagem além da fala. Ele ficou com essa mistura e acho que isso é o que o torna singular”.

Abaixo, a entrevista completa de Aïnouz ao Omelete, realizada durante o Festival do Rio 2026, onde Rosebush Pruning teve sua pré-estreia nacional. O longa estreia nos cinemas do Brasil em 15 de outubro, pela MUBI em parceria com a Filmes do Estação.
OMELETE: Karim, seja bem-vindo ao Rio com este filme!
AÏNOUZ: Obrigado, é um prazer.
OMELETE: Este é seu segundo longa em inglês, certo? Queria saber: quais diferenças você percebe ao dirigir em outro idioma, possivelmente com atores formados em tradições diferentes? Como isso afeta seu trabalho como diretor?
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AÏNOUZ: Eu procuro não mudar minha maneira de dirigir. Faço filmes fora do Brasil porque acredito que meu olhar interessa — se não, eles contratariam cineastas locais. Procuro manter a rotina que sigo aqui: tempo de ensaio, atravessar todas as cenas com os atores, discutir profundamente os personagens. No universo do cinema em inglês muitas vezes o ator aparece na véspera, faz prova de roupa e já entra em cena; comigo tento preservar o período de preparação, que considero fundamental para o que chamamos de cinema contemporâneo brasileiro — personagens que soam verossímeis nas pequenas ações do cotidiano.
Os desafios são basicamente dois: o idioma e a disponibilidade do elenco. Mesmo dominando outra língua, ela continua sendo um idioma estrangeiro; dirigir vem muito da emoção e da intuição, e é preciso escolher as palavras com precisão para transmitir ao elenco o que se busca — isso nunca é trivial, mesmo sendo fluente. E, com a indústria internacional muitas vezes bem financiada, é comum que atores dividam seus compromissos entre projetos. Por isso eu tento assegurar que eles possam se dedicar integralmente ao personagem durante o tempo necessário. Parece simples, mas não é. [Risos]
OMELETE: Falando em elenco, o filme tem atores de destaque: Callum Turner, Elle Fanning, Pamela Anderson… Como foi o processo de escalação? De que forma uma atriz como Pamela Anderson acabou sendo convidada para Rosebush Pruning?
AÏNOUZ: Dois fatores normalmente atraem atores: o texto e quem está dirigindo. Nesse projeto havia essa dupla combinação. O roteiro é bem particular — não se trata de um trabalho naturalista, os personagens flertam com o inventado, o fabuloso. Para profissionais acostumados a tradições realistas, algo lúdico e inesperado desperta curiosidade. Eles tinham a oportunidade de experimentar papéis fora do habitual, e para um artista isso, muitas vezes, é um convite para correr riscos — o que gera grande prazer. Eles queriam ver como eu trabalho e, ao mesmo tempo, se entusiasmaram com a singularidade do material.
OMELETE: O filme tem uma estética muito definida, com elementos teatrais e fantásticos. Como você traduziu isso a partir do roteiro e como achou o tom que queria empregar?
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AÏNOUZ: O que me interessou aqui foi que trabalhava com sátira pela primeira vez. A sátira já carrega uma certa artificialidade — ora contida e quase neutra, ora exagerada e teatral. Meu objetivo foi manter esses personagens críveis, de carne e osso, mesmo dentro do viés satírico. O desafio foi exatamente esse ponto de equilíbrio: como tocar um tango mantendo o balanço do samba, como eu brinquei antes. Queria que o tom fosse um lugar de tensão produtiva entre o artificial e o espontâneo. E foi fascinante porque os atores vinham com vontade de experimentar essa oscilação, de não saber exatamente onde o tom se assentaria — isso me atraía bastante.
OMELETE: Desde as primeiras exibições em festivais, o erotismo do filme tem sido muito comentado — algo que também aparece em suas obras recentes. Como você enxerga o papel do erotismo e do sexo na sua filmografia?
AÏNOUZ: Acredito que quanto menos o cinema dependa exclusivamente da palavra, melhor. O erotismo funciona como uma maneira de trazer corpo, presença e intimidade para a tela. Nem sempre isso significa cenas explícitas de sexo; frequentemente são sequências de intimidade, de contato, que dizem mais sobre um personagem do que longos diálogos. Para mim, cenas de intimidade, dança ou movimento podem revelar mais que monólogos inteiros. Neste filme, curiosamente, há bastante texto, muitos diálogos — então o erotismo acabou se transformando em um recurso para contrabalançar a predominância da palavra, trazendo a corporeidade para o primeiro plano. Essa mistura é, ao mesmo tempo, uma aposta e uma característica peculiar do projeto, que é a adaptação de um texto clássico de um autor grego; foi emocionante encontrar meu lugar nessa materialidade.
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OMELETE: Você já exibiu o filme em festivais no exterior. Como tem sido para você acompanhar a recepção internacional e agora trazê-lo para o público brasileiro?
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AÏNOUZ: É algo muito especial. Meu primeiro filme totalmente em inglês, Firebrand, foi lançado diretamente na Amazon [Prime Video] no Brasil, sem passar por salas — e isso me entristeceu porque senti que o trabalho não teve a exibição que merecia por aqui. Por isso estou particularmente feliz que Rosebush Pruning chegue aos cinemas; queria partilhar com o público brasileiro o que fiz lá fora e observar como eles vão reagir, se haverá pontos de contato com o que faço no Brasil.
Fico ansioso e curioso para acompanhar a leitura do público nas salas. Na pré-estreia no Festival foi curioso assistir a um filme todo em inglês com legendas em português e pensar: “Fui eu que fiz isso”. Espero aprender bastante com essa trajetória e ver como o longa se comporta no circuito brasileiro.
OMELETE: Perfeito, Karim, muito obrigado!
AÏNOUZ: Eu que agradeço!
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Especialista em mídia digital e televisão, Alba Baptista traz uma expertise detalhada para a categoria “TV” do VCFAZ.TV. Natural de Lisboa, ela explora as últimas tendências em programação televisiva, oferecendo críticas e análises que capturam e informam os entusiastas da TV.