Fallout sacrifica boas histórias por “grande plano” desastroso! Confira.

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Esta segunda temporada marca o início da “Westworldização” da série do Prime Video?

É com sinceridade que afirmo, estimados leitores, que não tenho nenhum desdém pela tentativa da série Fallout do Prime Video em estabelecer sua própria essência, com ideias originais e uma nova visão sobre a humanidade, tentando não depender demasiadamente da renomada franquia de jogos que a originou. Contudo, não posso deixar de expressar uma certa decepção ao término desta segunda temporada, que mais parece um engodo. É complicado revisitar locais, personagens e grupos do aclamado Fallout: New Vegas (2010) sem aguardar que eles sejam de algum modo incorporados à trama original que os criadores Geneva Robertson-Dworet e Graham Wagner vêm construindo desde o primeiro ano.

No famoso RPG da Obsidian, o jogador constantemente se depara com a necessidade de escolher alianças. Andando pelo deserto de Nevada (EUA), 200 anos após um apocalipse nuclear, o protagonista gradualmente se conscientiza das inúmeras lutas pelo poder que devastam a região – e as facções envolvidas são extremamente distintas entre si.

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A Legião de César é uma seita autoritária que remete ao Império Romano, praticante da escravidão e da crucificação de seus inimigos; a NCR (Nova República da Califórnia) é uma democracia falida que permitiu que ambições territoriais e belicismo dominassem sua administração; Mr. House é um bilionário convertido em tecnocrata que governa as ruínas de Las Vegas com mão de ferro; e assim por diante.

Como um forasteiro em todos esses grupos, o jogador é constantemente colocado na posição de decidir sobre dilemas morais ou de inclinar a balança de poder para um lado ou outro em uma disputa. O charme de New Vegas está em se infiltrar na Legião, na NCR, no círculo íntimo de Mr. House, e compreender as falhas e as dores que cada sistema impõe às pessoas que, por uma razão ou outra, estão sob seu domínio. E cabe a você, no fim das contas, decidir qual dor é mais justificável.

Infelizmente, nada do que mencionei acima fica claro na segunda temporada de Fallout. Os episódios, ao invés disso, deixam o espectador perdido neste novo mundo, introduzindo elementos narrativos com um histórico conhecido pelos fãs dos jogos, mas sem fazer o esforço de explicar esses detalhes para os novatos, nem de usar essa bagagem para enriquecer a história. Algumas cenas com a Legião, outras com a NCR, um Mr. House quase esquecido na narrativa de Cooper (Walton Goggins), e é isso – satisfeitos, jogadores? Trata-se de uma política de fan service pouco impactante e sem propósito, que já parece ultrapassada há uma década.

A sorte de Fallout é que, apesar dessa falha notável em explorar o novo território de sua narrativa e todos os dilemas dramáticos que poderiam surgir, a habilidade de Robertson-Dworet e Wagner na escrita permanece afiada. A série do Prime Video mantém da primeira para a segunda temporada a integridade temática que a tornou tão cativante desde o início: aqui, Fallout evolui para uma história que questiona a lealdade do indivíduo aos sistemas que o oprimem, ao conforto da abundância, à coreografia geométrica do privilégio. O ser humano sofre, mas não abandona o plano que o faz sofrer – por quê? E o que significa “ser bom” no contexto dessa sociedade que está de olhos e ouvidos fechados para quaisquer alternativas?

Quando foca nisso, Fallout brilha. Em “The Other Player” (2×06), a diretora Lisa Joy (Caminhos da Memória) utiliza referências clássicas na mise-en-scène e se deleita em transições e rimas visuais inteligentes, projetadas para destacar esse dilema. Durante toda a temporada, os arcos paralelos de Lucy (Ella Purnell), Hank (Kyle McLachlan) e Cooper avançam em direção a um confronto de perspectivas que, de fato, se entrelaça perfeitamente com a filosofia da franquia. Diante de um mundo de conflitos, afinal, que postura adotamos em relação ao futuro? É possível escolher seu próprio caminho, ou o mundo nos molda para seguir o dele?

São questões legítimas, talvez até urgentes para o público contemporâneo, e interpretadas com fervor pelos três atores principais. É uma pena que elas sejam relegadas a segundo plano, especialmente no final da temporada, em detrimento de meias-revelações de trama que exalam uma energia muito semelhante à de Westworld, outra série produzida por Jonathan Nolan, que se perdeu ao longo do tempo por focar mais em seu “grande plano” do que no coração de seus personagens. Contudo, Fallout sempre foi sobre seguir o que seu coração manda e lidar com as consequências – quer seja em New Vegas ou não, a série do Prime Video só tem a perder se esquecer disso.

Nota do Crítico

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