O longa de Matheus Farias e Enock Carvalho acerta ao mirar a crítica social e a atmosfera fantástica, mas tropeça em estereótipos manjados.
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À beira dos manguezais do Recife, acompanhamos Izaquiel (Caique Copque), um rapaz que trabalha como auxiliar de limpeza e leva uma vida dividida: de dia, cumpre funções numa instituição religiosa; à noite, se aventura entre as sombras em busca de encontros íntimos e discretos. Em uma dessas noites ele cruza com Jeremias (Ítalo Martins), um pescador enigmático que mora junto ao rio, e entre os dois nasce um vínculo marcado por misticismo, cumplicidade e carinho. Logo os dois precisam resistir à violência que ronda suas vidas, ameaçando até os esconderijos onde tentam se proteger.
A Margem do Rio, assinado por Matheus Farias e Enock Carvalho, transita entre o drama e o realismo fantástico para retratar experiências periféricas e queer. A narrativa constrói um relato denso sobre pertencimento, risco, afeto e espiritualidade, combinando insights muito precisos com escolhas narrativas que, por vezes, preferem caminhos mais simples.
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O filme descreve de modo cru e verossímil a realidade da comunidade LGBTQIAPN+ no ambiente urbano, mostrando como a invisibilidade se torna tática de sobrevivência. Para escapar do olhar hostil da sociedade, os personagens se escondem, se movem nas sombras e buscam as margens para viver seus impulsos. As sombras dos manguezais funcionam como contraponto ao convívio doméstico de Izaquiel com as amigas (Renna Costa e Ísis Broken), duas mulheres trans que dividem a moradia com ele. Esse espaço afetuoso, construído para acolher e aconselhar, se firma como um refúgio para as personagens.
A obra volta sua lente para uma crítica contundente às instituições religiosas e ao moralismo que permeia a sociedade, denunciando a hipocrisia de grupos que se valem da fé não para acolher, mas para estigmatizar e coagir. Ainda assim, é justamente na caracterização de certos núcleos e de parte do elenco que o longa se deixa limitar: há um uso excessivo de arquétipos já saturados no cinema — como a igreja apresentada de modo maniqueísta e caricatural — repetindo fórmulas previsíveis sobre fanatismo. Até o próprio Izaquiel, apesar de central para o enredo, acaba atravessado por clichês frequentes na forma de retratar corpos e identidades queer, desperdiçando a chance de oferecer camadas mais originais.
Onde a direção realmente acerta é ao incorporar elementos fantásticos que orbitam a figura de Jeremias e o próprio rio. O cenário, que a princípio aparece como ameaçador e misterioso, vai se convertendo em um lugar vivido e acolhedor, culminando em uma passagem final de forte carga poética e emocional.
Com percurso por festivais internacionais — exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, tendo estreado mundialmente no Festival de Locarno, na Suíça, e também apresentado no Festival do Rio — A Margem do Rio se mostra um filme de intenções corajosas e estética marcante. Porém, fica limitado por vícios na construção de alguns personagens, o que impede que a obra alcance uma voz totalmente própria e um impacto ainda mais contundente, afastando-se de representações já comuns no cinema nacional.
A Margem do Rio

A Margem do Rio
117 min
Enock Carvalho,
Matheus Farias
Italo Martins,
Caique Copque
